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Em artigos recentes falei sobre interesses pessoais e regulamentação. Noutros artigos escrevi a defender a regulamentação da acupunctura e ataquei muitas pessoas/instituições que vão contra a regulamentação. Apesar da oposição sentida ficou sempre um desejo de conseguirmos encontrar um caminho comum a todos. Afinal de contas protestámos todos a uma só vez contra o acto médico… faz tantos anos que algumas pessoas já não se lembram ou ainda não pertenciam à futura comunidade de acupunctores.
Se fomos unidos uma vez porque não poderemos se-lo agora? Serão os interesses pessoais os principais responsáveis pela nossa luta fratricida? Porque logo agora quando estamos a um passo de ser reconhecidos se abrem hostilidades a campo aberto? Faz uns anos falava eu com um colega sobre este momento e lembro-me de lhe dizer que ainda estaria para vir uma luta dentro da própria classe.
Existe na minha opinião algo por trás dos interesses pessoais que os movem. Não digo que se devam restringir os interesses pessoais a este motor primeiro mas afirmo que sem ele muito do abismo que se coloca entre vários profissionais nunca será compreendido. Mas antes de falar sobre este “motor primeiro” falemos da realidade nua e crua: nunca fomos unidos.
Quando os diferentes profissionais da acupunctura (e não só evidentemente. Devo chamar a atenção que por acupunctura quero dizer medicina chinesa ou outras medicinas com origem na chinesa) se uniram contra o acto médico não o fizeram porque se viam como iguais ou como membros de uma determinada classe mas sim porque se sentiram atacados por outra classe profissional. Foi a criação de um inimigo que nos uniu. Tal como os EUA e URSS, após a destruição do inimigo, separámo-nos. Seria importante as pessoas terem noção de que nunca existiu uma classe unida e profissional e nunca houve interesse em faze-lo enquanto não houvesse regulamentação. A divisão que observamos hoje em dia sempre lá esteve, como um vulcão, à espera do momento certo para explodir. Agora chegou o momento e o vulcão entrou em erupção.
A realidade da nossa situação ao longo dos anos leva-me a reflectir sobre o “motor primeiro” que despoletou toda a controvérsia que vivemos. A falta de identidade. Ao contrário do que muitos pensam esta luta não se resume a uma luta de escolas ou aos interesses pessoais. É claro que isso é importante mas não é o essencial. No fundo é a cobertura do bolo. Noutros cursos existe disputa entre as diferentes escolas mas isso não significa que a comunidade profissional se encontre profundamente dividida como a nossa. Não interessa em que escola se estudou medicina, enfermagem ou gestão. No final todos pertencem à mesma classe profissional e, apesar de divergências internas, todos funcionam como um corpo unido.
Enquanto os acupunctores não criarem uma identidade própria nunca serão uma comunidade unida. Mas como poderemos criar uma identidade comum? Para se ser fuzileiro é necessário passar uma série de provas, é crucial ultrapassar uma série de obstáculos físicos e psicológicos de forma a criar uma mentalidade comum a todo o grupo. A questão é que todo o grupo terá de passar pelas provas. Qualquer pessoa que não aguente desiste e não chega a fuzileiro. Num curso de matemática aplicada dá-se o mesmo processo. Existem uma série de desafios a serem ultrapassados. É o conhecimento adquirido ao longo desse período de treino que vai definir no final o matemático. Podem existir disputas entre escolas mas todos tem de passar por um nível mínimo de provas que os definem, que definem a sua capacidade, que definem as suas competências técnicas, o seu conhecimento. É isso que define um matemático, um fuzileiro, um jogador de futebol.
A luta que vemos desenrolar-se à nossa frente nada mais é que não uma futura comunidade a tentar definir a sua própria identidade. Essa identidade só será definida quando se chegar a um acordo sobre os desafios a ultrapassar, as competências técnicas a adquirir, enfim… todo um conjunto de conhecimentos que definam a nossa acção no seio das profissões de saúde. Nunca se criou uma comunidade porque nunca se estabeleceu o número de desafios a ultrapassar. Enquanto uns correm 20 km por dia a 30 km/hora outros fazem 10 metros de bicicleta.
O mais irónico é que o primeiro passo para conseguirmos criar uma identidade própria, uma identidade que nos defina e nos dê um rumo futuro é aceitar a regulamentação tão atacada. Ao propor separar o trigo do joio e impor determinados conhecimentos base para todos os profissionais a regulamentação mais não faz que criar as condições para a formação da nossa identidade profissional. E a luta de fundo é esta: até que ponto estamos dispostos a trabalhar para criar uma identidade profissional?
Muito se pode berrar por democracia mas a verdade é que eu, com uma formação base a rondar as 4500/4600 horas, não me considero da mesma classe profissional que uma pessoa que se inscreveu no curso, desistiu no final do primeiro ano ou do segundo ano, ficando com cadeiras em atraso, e decidiu começar a exercer. E nestas condições nunca teremos uma identidade própria porque nunca sofremos o mesmo, porque existe uma discrepância enorme entre os conhecimentos de uns e outros. Isto é o necessário para se formar uma identidade e acabar com este tipo de “zangas amorosas”. Mas quem é que está disposto a sofrer para ver nascer esta nova identidade?
Eu defendo a regulamentação. Creio que não é perfeita mas é bastante positiva. Consegue salvaguardar os doentes e garantir-nos a base para a formação de uma comunidade de profissionais credível. Acima de tudo consegue oferecer as bases necessárias para a criação de uma identidade própria. É evidente que aceitar a regulamentação não é o mesmo que afirmar que todos os problemas acabarão. Ainda faltam outros passos importantes mas este é sem dúvida um salto gigantesco. Enquanto não se puder formar uma identidade própria a democracia não só será inútil como uma ilusão e os argumentos nela baseados uma perda de tempo.
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