tratar crises de cólica renal

ABSTRATO

Paciente do sexo masculino, 41 anos, apresentava uma crise de cólica renal há 1 semana, e contactou-me no sentido de ser dada consulta ao domicílio de emergência. A crise tivera início numa terça-feira e, desde então, o paciente apresentava dores que considerava insuportáveis.

Após internamento, sentiu ligeiras melhoras. No entanto a medicação dada provocou uma série de efeitos secundários como náuseas, vómitos e sabor amargo na boca que tornaram impossível ao paciente alimentar-se e beber água, acabando por também parar com a medicação. A 1ª consulta foi dada, Sábado, 5 dias após a crise inicial.

Face aos efeitos secundários da medicação, foi necessário fazer 2 tratamentos: um vocacionado para a dor de cólica renal e outro para tratar o padrão clínico associado aos vómitos e sabor amargo na boca.

O paciente apresentou melhoras durante o dia de Sábado deixando de sentir qualquer dor e ficando com menos náuseas o que lhe permitiu jantar normalmente. Na noite de Sábado para Domingo, surgiu uma nova crise que obrigou a novo internamento. Desta vez foi visto por um urologista. O médico urologista alterou a medicação e o paciente ficou sem dor e sem os efeitos secundários da medicação anterior.

Esta última crise deveu-se ao movimento do cálculo renal (6 mm). A ecografia mostrou que o cálculo renal se encontrava na porção inferior do uretero, à entrada da bexiga.

Na segunda-feira foi feita uma segunda e última consulta de forma a tentar prevenir o aparecimento de dor. Na segunda-feira ao final da tarde, o paciente começou a sentir um ligeiro ardor ao urinar e dificuldade urinária. Há noite notou que tinha sido expulso um pequeno cálculo de aproximadamente 6 mm.

CASO CLÍNICO

1ª CONSULTA

QUEIXA PRINCIPAL

Cólica renal

teve a 1ª crise terça-feira.

internado – melhorou ligeiramente.

foi prescrita medicação que parou de tomar, por livre iniciativa, devido a efeitos secundários no estômago.

dor lombar esquerda que irradia para o estômago.

melhorou com banhos de imersão quentes. – só o calor não apresenta resultados. Tem de ser calor húmido.

sensação de peso na região lombar.

dor aguda e persistente, tipo picada.

dor considerada insuportável, nível 10.

não melhora com movimento.

não tem posição de alivio de dor.

não irradia para o períneo ou genitais. Só para o abdómen.

micção sem problemas.

urina muito escura desde a 1ª crise – hematúria (sangue na urina).

sem disúria.

sem fraqueza nos membros inferiores.

não sabe se frio agrava a dor.

dor agrava há noite.

com a medicação ficou com náuseas e vómitos.

sente-se tão nauseado que não consegue comer nem beber água. Começa a faltar à toma da medicação.

sensação de queimadura no estômago.

as cólicas também podem estar associadas aos enjoos e vómitos.

sente-se constantemente agoniado.

sabor amargo na boca – surgiu terça com a medicação.

No passado teve problemas de fígado: dor no hipocôndrio, náuseas e vómitos com o consumo de alcool e gorduras.

MEDICAÇÃO

nolotil

sparmolax

indocil

DIAGNÓSTICO

cólica renal por estase de sangue e humidade (?)-frio

náuseas por humidade-calor no Fígado e estômago

EXPLICAÇÃO

Neste paciente existem 2 padrões clínicos que serão analisados em separado, apesar de um deles (humidade-calor no Fígado e estômago) influenciar os tratamentos do outro (cólica renal por estase de sangue).

A cólica renal apresentava alguns sintomas que indiciavam a existência de 2 padrões clínicos. Por um lado a dor tipo facada e o agravamento há noite indicavam a existência de uma estase de sangue. A sensação de peso na zona lombar, o agravamento com movimento indicavam possivelmente um padrão de humidade.

Existem dúvidas relativamente ao padrão de humidade, uma vez que o paciente melhorava com calor-húmido. Isto levanta alguns problemas de análise: se melhora com calor-húmido então deve ser frio, no entanto não melhora unicamente com calor. Por outro lado existem sintomas que indicam a existência de um padrão de humidade (sensação de peso, agravamento com movimento) e outros que contrariam isso (melhora com humidade). Apesar de em dúvida, preferi considerar o diagnóstico de Humidade-Frio uma vez que era aquele que tinha mais sintomas a suportá-lo.

Outro problema era um historial clínico que evidenciava um padrão de Humidade-Calor no Fígado (consumo de álcool e gorduras geravam dor no hipocôndrio, náuseas e vómitos) e que foi agravado pela toma da medicação (sensação de queimadura No estômago, sabor amargo na boca, náuseas e vómitos).

ACUPUNCTURA

CÓLICA RENAL

10BP, 4VC, 3VC, 28E, 9BP, 6BP, 3R, 40B, 60B, 4 JIAJI LOMBARES E 3 SHU ASHI (ESTES ÚLTIMOS SÓ DO LADO ESQUERDO).

36E – HUMIDADE E SINTOMAS DIGESTIVOS.

ENJOOS

6MC, 2F, 12VC, 14F, 40VB

EXPLICAÇÃO

Tal como diagnóstico vamos dividir a nossa análise consoante a queixa em causa.

O protocolo usado para a cólica renal foi:

10BP, 4VC, 3VC, 28E, 9BP, 6BP, 3R, 40B, 60B, 36E, 4 JIAJI LOMBARES E 3 SHU ASHI (ESTES ÚLTIMOS SÓ DO LADO ESQUERDO).

PONTOS LOCAIS: 4VC, 3VC, 28E, JIAJI LOMBARES E SHU ASHI

PONTOS DISTAIS: 10BP, 9BP, 6BP, 40B, 60B

PONTOS SINTOMÁTICOS: 6BP, 40B, 60B, 3R

PONTOS DO MESMO MERIDIANO: 28E-36E; 4VC.3VC; SHU ASHI-40B-60B; 6BP-9BP.

PONTOS DE MERIDIANOS ACOPLADOS: ESTÔMAGO-BAÇO.

PONTOS DE PARES DE MERIDIANOS: NÃO TEM.

PONTOS ANTERIORES POSTERIORES: SHU ASHI-4VC-3VC.

Neste protocolo são visíveis duas abordagens distinctas. A selecção de pontos de acordo com o sistema nervos (jiaji) e o sistema de meridianos (meridiano da Bexiga), atendendo à localização da dor como uma manifestação de patologia do meridiano.

Selecção de pontos atendendo à análise semiológica, ou seja, atendendo aos possíveis padrões clínicos. Neste caso usou-se:

10BP – move o sangue e é importante para o sistema genito-urinário.

4VC – nutre o Yuan Qi.

3VC – ponto MU da bexiga.

9BP e 6BP – eliminam humidade. De atender que o 6BP é extremamente importante para qualquer tipo de problema que afecte o Aquecedor Inferior.

28E e 36E – usei 2 pontos do mesmo meridiano (1 local e outro distal) com o objectivo de eliminar humidade e regularizar o AI.

Dar atenção à combinação 36E e 6BP que além de serem indicados para a queixa da cólica ou para o padrão clínico em causa serem também úteis no tratamento de problemas digestivos.

Para os enjoos usei um protocolo mais pequeno, uma vez, que o protocolo anterior já era muito extenso. O protocolo usado foi: 6MC, 2F, 12VC, 14F, 40VB.

PONTOS LOCAIS: 12VC, 14F

PONTOS DISTAIS: 6MC, 2F, 40VB

PONTOS SINTOMÁTICOS: atendendo aos diversos sintomas (sabor amargo na boca – 40VB; sensação de queimadura no estômago – 2F, 12VC; náuseas -6MC, 12VC; etc..) quase que se podem considerar todos os pontos escolhidos como sintomáticos.

PONTOS DO MESMO MERIDIANO: 14F-2F

PONTOS DE MERIDIANOS ACOPLADOS: 14F/2F-40VB

PONTOS DE PARES DE MERIDIANOS: 6MC-2F/14F

PONTOS ANTERIORES-POSTERIORES: Não tem.

Os pontos locais 14F e 12VC tem como função actuar nos sintomas mais importantes como sensação de queimadura no estômago e náuseas. Estes 2 pontos vão regularizar a relação Fígado-Estômago. O ponto 6MC é um ponto sintomático para sintomas digestivos e vai fortalecer a acção dos últimos pontos locais.

O ponto 2F elimina calor e o ponto 40VB elimina humidade. Ambos são importantes para alguns dos sintomas referidos como sabor amargo na boca.

2ª CONSULTA

REACÇÕES

ficou sem dores nenhumas após a consulta.

enjoos e vómitos melhoraram e conseguiu jantar.

Hás 3 da manha de sábado para domingo surgiu uma crise tão grave quanto a de terça-feira.

o calor-humido aliviava ligeiramente.

foi internado e enviado para outro hospital com especialidade de urologia.

a localização da dor era idêntica.

urologista mudou medicação:

omeprazol – proteger o estômago

norfloxacina – antibiótico para prevenir infecções.

diclofenac

tansulosina – para dilatar vias urinárias

retirou o nolotil que provocava os sintomas gástricos (de acordo com o que disse ao doente).

Médico aconselhou paciente a beber muita água e passear.

ACUPUNCTURA

idêntico para a cólica renal.

Não foi feito tratamento para o estômago uma vez que os sintomas desapareceram com a nova medicação.

NOTA

No fim do dia da segunda consulta o paciente começou a sentir um ligeiro ardor ao urinar e dificuldade a urinar. Nunca tinha sentido estes sintomas. Por altura do jantar, após ter urinado observou algo semelhante a uma pedra porosa com perto de 6 mm. Após isso ficou somente uma sensação ligeira de desconforto que tem vindo a melhorar.

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