Sentir o Qi: condicionalismo psicológico e cepticismo informado

Sentir o Qi: condicionalismo psicológico e cepticismo informado


Por várias vezes me expressei, em textos do blogue, contra a má tradução de determinados termos em medicina chinesa assim como relativamente a outras práticas, como sentir o Qi. Na realidade já escrevi a criticar esta prática. Neste artigo pretendo abordar o mesmo problema mas sob outra perspectiva. No fundo, defendo que sentir o Qi nos pontos de acupunctura e nos meridianos não é mais que condicionamento psicológico e vontade de acreditar aliado a uma ausência patológica de cepticismo informado.

Podemos dividir este artigo em 2 partes: (1) factos históricos, e outros tantos actuais, que levam a crer que sentir os pontos de acupunctura nada mais é que condicionalismo psicológico: (2) teorias e definição de experiências de algum interesse que, espero, demonstrarão o condicionalismo psicológico por trás desta prática.

Em primeiro lugar existem alguns factos históricos de alguma relevância que colocam em causa esta prática:
1 – os meridianos apresentam percursos diferentes ao longo da história;
2 – os meridianos apresentam pontos de acupunctura diferentes: actualmente existem mais pontos regulares do que existiam à séculos atrás;
3 – actualmente existem alguns diferendos entre escolas: existem pontos do meridiano da vesícula biliar que são localizados à frente do osso perónio, em algumas escolas, e atrás do mesmo osso, noutras escolas; também existem diferenças relativamente à localização de alguns pontos extra, nomeadamente, dos pontos Dannagxue e Anmian.

É crucial salientar que as pessoas sentem os meridianos tal como lhes são ensinados ao longo das épocas. O mesmo acontece para os pontos de acupunctura. Ninguém sentia 45 pontos no meridiano do estômago há 3000 anos. Naquela altura o meridiano do estômago não tinha 45 pontos. Os percursos dos meridianos também eram sentidos consoante o ensino que recebiam. Os diferendos actuais indicam que as pessoas sentem os pontos onde lhes ensinam a sentir. Se for ensinado a sentir que determinado ponto se encontra no bordo anterior do perónio… então é aí que o vão sentir.

Basta um pouco de senso comum para perceber que sentir o Qi, nos dias de hoje ou no antigamente, nada mais é que um processo de condicionamento. As pessoas aprendem a enganar o cérebro de forma a extrair dele a informação que desejam. Deste fenómeno a realmente sentir o Qi vai uma grande distância. Relembro que sentir o Qi tem lógica quando traduzimos este termo como energia. O seu significado real deixa pouca margem de manobra para os defensores do Qi.

Noutro artigo falei dos pontos activos. Se 3 pessoas (que sintam o Qi nos pontos de preferência) forem sentir os pontos no mesmo paciente mas em tempos separados e sem saberem onde os outros marcaram os pontos ou que pontos marcaram, então, começamos a ver que existem sempre diferenças. Vão sentir os pontos em locais diferentes.

A teoria defendida por muitos é que existem pontos activos. Ou seja os pontos movem-se, não são extáticos. A este argumento nem teoria se pode chamar. Efectivamente não é mais do que uma tentativa desesperada de criar condições que não possam ser avaliadas, de forma a que cada um possa dizer o que bem entender. Porém existem outras formas de de se colocar em xeque os proponentes destas capacidades místicas.

Uma delas, muito simples, consiste unicamente em pedir que se localizem os pontos de acupunctura numa dada região do corpo (bordo Antero externo da perna ou região ocular, por exemplo). Em primeiro lugar a pessoa deve dizer quais os pontos que conhece. Depois deve marcá-los no corpo. A seguir deve aconselhar-se a pessoa a sentir bem toda aquela região de forma a deixar os pontos bem marcados.

Finalmente pode pedir-se que se procurem pontos nunca sentidos por ninguém. Na realidade existem milhares de pontos e a maioria das pessoas só conhece umas poucas dezenas. Mas existem outros. A lógica do exercício é fazer com que o proponente do Qi consiga encontrar a localização das dezenas de pontos locais que ele nunca estudou. Curiosamente, se ele nunca os estudou, não os consegue sentir. A não ser que alguém lhe diga que ali existe um ponto de acupunctura. Aquilo que não se aprende não se sente: uma velha máxima (inventada por mim nos últimos 5 segundos) do condicionalismo psicológico. O mais arrepiante, no final, é que existem milhares de pessoas a acreditar neste tipo de esoterismo, mas basta um minímo de bom senso para o destronar.BannerFans.com
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O autor

nuno lemos

Licenciado em Medicina Chinesa pela Universidade de Nanjing divido o meu tempo entre prática clinica, aulas e formações de acupuntura, escrita e mestrado em radiofarmácia.

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  1. Luís Dinis says

    Boas Nuno. Gostei do post e vejo o ponto de vista e concordo, ao ver este post resolvi comentar e aproveitar para fazer umas perguntas em relaçao ao tema.
    1º Se a localizao dos pontos nao é assim tao precisa como é que podemos chumbar em TMP em termo praticos se falhar o ponto por 1mm?
    2º Existem pontos com localizaçao diferente de escola para escola o caso do ponto do VB referido acima, esse ponto vai ter uma acçao certo? a acçao vai ser a mesma, ou seja o resultado que queremos obter vai ser o mesmo, sendo a punctura em locais diferentes do corpo?

    As minhas questao podem ser um pouco descabidas mas ao ler o post surgiram. Cumprimentos

    Responder

  2. Ana M.Dias says

    Gostei deste artigo. Finalmente alguém teve a coragem de falar nisto, desde os primórdios do curso que nos tentam impingir tretas esotéricas sobre o dito ” sentir o Qi “!!! Parece quase uma lavagem cerebral ou tentativa de hipnose!! Já me sinto mais contente por saber que existem pessoas, que através do seu cepticismo, tenham a ousadia de se questionar sobre os fundamentos da MTC.

    Responder

  3. nunol says

    Boas Luis, a questão que coloca é relevante. Acho um pouco estranho chumbar um ano porque se falhou um ponto por 1 mm. Apesar de eu não dar crédito a “sentir o Qi” acho importante as pessoas terem capacidade de localizar correctamente os pontos. Mas isso vai depender dos professores que avaliam.
    A acção é a mesma. Se reparar pontos anatomicamente próximos tem acções e indicações clínicas muito semelhantes. Ao analisarmos com cuidado as indicações clínicas dos pontos e se relacionarmos essas indicações com a sua localização encontramos uma relação muito forte. Eu encontrei essa relação imensas vezes durante os meus períodos de estudo.
    No entanto salvo aqui um parênteses: quando se menciona acções clínicas diz-se respeito à capacidade do pontos de actuar em padrões clínicos como o Vazio de Yin, Humidade-Mucosidade, etc… e quando se fala de indicações clínicas refer-se os sintomas como palpitações ou dor no ombro ou dor no hipocôndrio ou sangue na urina (hematúria), etc…

    Não creio que as suas questões fossem descabidas.
    Abraço

    Responder

  4. Rui Santos says

    Olá…Como sempre grandes textos. Muito ja aprendi por aqui.
    Até te dizia um nome de um prof. que chumba por falhares meia unha o ponto, o que de certo ponto é descabido, já que nem entre os entendidos há consenso na localização dos mesmos. (Pelo menos em alguns)
    Um abraço

    Responder

  5. Rubens says

    Bom dia! Também sou´cético para algumas prática, no entanto gostaria de saber, existe um aparelho que por bioimpedância, consegue localizar aqueles pontos de acupuntura, dito que todo ponto de acupuntura ou pelo menos a maioria tem a impedância menor….
    Não acredito de alguem seja realmente capaz de fazer este tipo de mensuração apenas com os dedos sem um aparelho de impedância….

    Abraços…

    Responder

  6. nuno lemos says

    Agora tocaste num ponto interessante. Ao usar aparelhos de impedância basicamente medimos a corrente eléctrica. Se considerarmos que esses aparelhos medem o Qi então o qi é corrente eléctrica.
    O problema agora adensa-se: nos membros o percurso dos meridianos corresponde ao percurso do sistema nervoso. Ou seja está-se a medir o qi ou a corrente eléctrica dos nervos? lol
    Para mais informações, um pouco técnicas sobre estes assuntos podes consultar os seguintes textos:
    http://acupuntura.blogas-pt.com/category/4mtc-e-ciencia/acupuntura-e-sistema-nervoso/
    nesta categoria encontras alguns textos que abordam as ligações entre o sistema de meridianos e o sistema nervoso.
    A próxima sequência de 3 textos aborda este problema:
    http://acupuntura.blogas-pt.com/acupunctura-e-ciencia-parte-i/
    http://acupuntura.blogas-pt.com/acupunctura-e-ciencia-parte-ii-2/
    http://acupuntura.blogas-pt.com/acupunctura-e-ciencia-parte-ii/
    espero que gostes.

    Responder

  7. Almeida says

    Olá amigo, muito terei k falar com todos sobre academicismo de MTC, métodos e empirismo sobre a utilização de pontos acupuncturais e sobretudo sua ineficácia terapeutica ou resultados de placebo. Gostei do teu artigo. Atè já

    Responder

  8. nuno lemos says

    Boas Almeida, se não se importar podemos tratar-nos pelo nome próprio. Prefiria desta forma para ser sincero.
    Então espero pelos seus comentários futuros. Já vi que somos capazes de não concordar totalmente pelo que fico ansioso pela discussão que se possa seguir. lolol
    abraço

    Responder

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