25
Jun

Apesar de gostar bastante do modelo do exame nacional devo dizer que me surgem algumas incertezas relativamente ao mesmo. As minhas grandes reticências relativamente a este modelo estão associadas à sua operacionalização. O modelo actual diz-nos que existem profissionais que já estão aptos a exercer e que possuem os conhecimentos adequados para avaliar outros profissionais e para definir os graus de exigência necessários à formação de profissionais e dignificação da profissão. O modelo do exame nacional não nos oferece essa contrapartida. Ou seja, não nos providencia um ponto de partida.

Atenção, também se deve centrar, na falibilidade dos 2 processos. Até certo ponto o exame nacional é menos falível que a apresentação de casos clínicos, uma vez que estes podem ser falsificados (não tão facilmente quanto alguns pensam e, provavelmente, não tão dificilmente quanto eu gosto de pensar). O modelo de exame nacional prejudica essencialmente os acupunctores com alguns anos de prática, uma vez que o modelo actual está feito para entrar em linha de conta com a sua experiência profissional desde a aplicação prática de conhecimentos à interacção com outros profissionais de saúde. O modelo actual considera que a prática clínica, mesmo que não tenha sido tutelada, possa ter tido impacto no crescimento do profissional e pretende beneficiar esses profissionais. O modelo de exame nacional não oferece as mesmas possibilidades.

Quando se pensa em fazer um exame nacional, tem, obrigatoriamente, de se pensar em quem vai fazer esse exame. Para existirem avaliados tem de existir, pelo menos, um avaliador. Quem vai ser responsável por essa avaliação? Se eu escrever as perguntas dos exames nacionais de acupunctura, tem lógica ir fazer esses mesmos exames quando já sei as respostas? E quem me iria avaliar a mim?

E o José Faro, o Pedro Choy e outros acupunctores com 30 anos ou mais de prática não se importariam de ser avaliados? O que aconteceria se um deles chumbasse? Imagine-se o Pedro Choy, o José Faro, o Eduardo Vicente ou o Araújo Brito a chumbar num exame? Quanto tempo faltaria para todo o processo descambar numa luta pública com acusações de incompetência de um lado e de perseguição e discriminação do outro? Quanto tempo seria necessário para ver o MTCforum ou a comunidade MTC repletas de comentários a criticar os interesses pessoais?

Por outro lado, pede-se um avaliador que saiba de acupunctura: ter anos de prática em acupunctura e saber acupunctura são coisas diferentes. Como eu, muitos dos acupunctores, que leiam este texto, já devem ter encontrado acupunctores com mais anos de experiência que não percebem nada de acupunctura.

Num exame nacional, seria mais sensato pedir aos acupunctores mais velhos para servirem de avaliadores. Isto indicaria que os poderosos, mais uma vez, neste portugalito tão nosso, estariam acima da lei e todos os outros não. E como se definem os avaliadores: pela sua formação ou pelo seu poder de atracção social e politico? O modelo actual dá primazia à formação e todos nós assistimos aos problemas que tem gerado. A questão agora seria: quem tem direito a ficar acima da lei? Não vai isto, contra o princípio do exame nacional que pretende que todos os acupunctores sejam obrigados a passar pelo mesmo processo? Ou existirão limites à aplicação dos nossos conceitos democráticos? Não será um acto de fraqueza moral colocar os conceitos democráticos em causa face ao medo de encarar lobbies ou pessoas importantes?

O modelo actual de regulamentação aceita o currículo de acupunctores com mais de 10 ou 15 anos de prática. Na realidade ele adapta-se a diferentes acupunctores consoante os seus anos de prática na medida em que se considera que esses anos no activo, foram proveitosos para a formação contínua do acupunctor. O modelo de exame nacional indica que ninguém pode ser aceite sem o exame final. Corremos o risco de ficar com um exame nacional sem professor que o escreva nem corrija e com muitos nomes sonantes em risco de terem de ir para a escola novamente? Responder a estas questões é incomodativo mas necessário se queremos pensar nos problemas com frontalidade e seriedade.

CATEGORIA : Regulamentação
DeliciousFacebookDigg
RSS FeedStumbleUponTwitter