Propostas e contra-Propostas: resposta Pessoal ao Sr.º Pedro Choy – PARTE III

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Analisando casos clínicos na ESMTC. Se desejar discutir o seu caso sem encargos financeiros basta clicar na imagem

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Relação de medicina chinesa com a actualidade

Outra falha enorme encontra-se na análise que se faz das relações entre a acupunctura e outras profissões de saúde. Muitas destas falhas demonstram, realmente, uma visão esotérica ou místico-mágica, daqueles que atacam o processo de regulamentação.

Comecemos pela incapacidade de analisar correctamente a relação entre a acupunctura e outras profissões de saúde. Novamente, colocarei, o que está escrito na proposta seguido dos comentários.

1 – Proposta

“Identifica a medicação e os suplementos dietéticos que o utente está a tomar e considera o seu efeito na condição energética do paciente”

Comentário:
”Implica formação em Medicina Convencional e/ou farmácia.[1]

2 – Proposta

2.3.1.3. Avaliar a Farmacologia e os suplementos Dietéticos e Fitoterápicos Ocidentais.

Comentário:

“Um Acupunctor não pode ser obrigado a saber avaliar o efeito dos fármacos e ou da Fitoterapia Ocidental pois são estranhas à sua formação académica[2]”.

Na realidade, estes comentários são grotescamente reveladores de falta de formação dos seus autores. Não só denunciam pessoas cujos espíritos se encontram fechados no passado como demonstram uma incapacidade gritante de olhar objectivamente para os problemas que se colocam à acupunctura no século XXI.

Quando é proposto que o acupunctor deva saber identificar a medicação e o seu efeito na condição clínica do paciente não se diz que se deve invadir a área de acção do médico ou do farmacêutico.

Por exemplo, a toma da pílula, altera os sintomas menstruais, o que torna o nosso diagnóstico condicionado. Outros medicamentos podem alterar o pulso o que condiciona a nossa análise do mesmo. Se não tomarmos atenção a estes factores, muito dificilmente conseguiremos saber distinguir quais os sintomas relevantes ou não, terminando com um diagnóstico errado.

Outro problema coloca-se no tratamento de pacientes neoplásicos. Muitas vezes o tratamento com fitoterapia é feito com o intuito de eliminar ou diminuir muitos dos efeitos secundários associados à quimioterapia (e radioterapia também). Isto implica saber quais as alterações provocadas pela quimioterapia de forma a estabelecer o correcto diagnóstico e uma boa prescrição. Na realidade já existem fórmulas para tratar esse tipo específico de problema.

3 – Proposta

“Ponderar os efeitos secundários dos produtos farmacêuticos ocidentais e determinar as necessidades que advêm dos mesmos para a reavaliação do doente”

Comentário:

“Sem cabimento. São funções do Médico ou do Farmacêutico e não do Acupunctor[3]”.

Uma pessoa que não sabe diferenciar as funções do médico e do acupunctor não deveria tentar criar uma regulamentação. As funções do médico consistem em prescrever os medicamentos. E falamos do médico, não do farmacêutico. É claro que tem de tomar em linha de conta com os efeitos adversos da medicação que prescreve.

O que está exposto neste parágrafo nada tem a ver com isso. Está, sim, relacionado, com o facto desses efeitos adversos puderem enviesar o nosso diagnóstico. Há medicamentos, por exemplo, que causam cefaleia. Devemos distinguir, então, a cefaleia decorrente da toma do medicamento dos outros sintomas. Por isso se fala em reavaliação do doente.

Uma vez que a grande maioria dos doentes que recorrem à acupunctura já estão medicados, é importante estabelecer essas diferenças. Para tal, não é necessário, entrar no domínio médico: um interrogatório e anamnese bem construídos, assim como o conhecimento da medicação (e dos seus possíveis efeitos através da leitura da bula) podem perfeitamente ajudar o acupunctor a uma prática clínica mais responsável.

Este comentário, como os outros, demonstra uma imaturidade clínica indigna de alguém que pretenda chamar-se acupunctor ou que pretenda ter uma participação válida e académica no processo de regulamentação.

Infelizmente, os disparates ainda não acabaram. Daremos, agora, atenção à visão mística que os autores dos comentários demonstraram. Esta visão não é mais que o reflexo de uma análise errada dos conceitos de medicina chinesa exacerbados por uma falta de formação científica que enferma todo o seu discurso.

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4 – Proposta

“Identificar genericamente os tipos de medicação farmacológica…”

comentário:

“Eliminar. A acção da medicação farmacológica por não ser energética, sai do âmbito da Acupunctura[4]”.

5 – Proposta

“Determinar os sistemas envolvidos pela acção energética dos agentes farmacológicos dos suplementos dietéticos e dos fitoterápicos ocidentais.”

Comentário:

“Sem cabimento. Incongruente.

Não faz sentido uma vez que os fármacos não são passíveis de serem avaliados energeticamente ao abrigo dos princípios da Acupunctura[5]”.

Estes últimos comentários seriam sensatos se fossem escritos por Alice, no País das Maravilhas; no mundo real tornam-se vergonhosos. Primeiro existe a noção errada da diferença entre energético e farmacológico. Este é o principal sintoma de uma visão esotérica da MTC e dos seus conceitos, envenenados, ao longo do tempo por linguagem New Age. A verdade é que a Matéria Médica Chinesa, assim como todas as outras, funcionam com base em princípios activos assim como os medicamentos. A diferença está na sua forma de classificação.

O modelo de classificação usado pela Acupunctura não inviabiliza a sua compreensão face a outros modelos nem limita a sua aplicação aos produtos usados tradicionalmente na MTC ou outras medicinas tradicionais. Na realidade, já começam a existir estudos que procuram compreender a base bioquímica da classificação das drogas em MTC que nos permitirá compreender melhor as relações que estes podem formar com a medicação ocidental, assim como dar uma nova ideia da fisiologia que fundamenta o nosso diagnóstico. Esperaria, de uma pessoa que pretende ajudar a regulamentar a acupunctura (e que se gaba do seu trabalho na área da saúde) que não só tivesse um discurso cujos conceitos fossem bem conhecidos, assim como se não fossem deturpados. Já para não falar no conhecimento dos últimos trabalhos de investigação científica que poderão ser cruciais para o nosso futuro.

Já agora: o que significa “ao abrigo dos princípios de acupunctura”? É que, apesar de ser professor há 6 anos, na área da acupunctura, nunca vi nenhum princípio a afirmar tal coisa. Esta frase, assim como o resto do comentário, não passa de verborreia sem sentido.

6 – Proposta

“Distinguir entre sintomas de situações Comuns e Sintomas de Gravidade, Urgência e Emergência”

Comentário:

“Outra vez a emergência, redundante, além de que os acupunctores não irão trabalhar em Serviços de Urgência, poderão deparar com uma situação de utente na mesma proporção de qualquer outro cidadão… eliminar todo o capítulo.[6]

Este último comentário não destoa de todos os outros. Continua patente a falta de formação teórica e prática, assim como uma atitude irresponsável de alguém que não tem noção exacta do tipo de pacientes que podem aparecer numa clínica. Provavelmente devido a passar muito tempo em tratamento para deixar de fumar… com sucessos de 96%.

Na realidade o acupunctor pode deparar, com mais frequência que o cidadão comum, com casos de urgência. Basta saber que muitos dos pacientes que recorrem às consultas de acupunctura o fazem porque mais nada resultou no alívio das suas queixas. Já tratei pacientes com bloqueio completo do ramo esquerdo coronário. Qualquer cardiologista sabe que este é um problema grave.

Tenho pacientes com arritmia. Se um desses pacientes começar a referir enjoos, vertigens ou mesmo desmaiar, então, será importante reconhecer a emergência (redundante?!) dos seus sintomas. Talvez não? Ou talvez sim…

Isto para não falar dos riscos de uma má punctura. Apesar de serem pouco comuns, eles existem. Um deles é o pneumotórax. Será importante o acupunctor reconhecer os sintomas urgentes do pneumotórax?

Capacidades do paciente e do terapeuta

Para felicidade de muitos leitores, este item é o mais curto. Provavelmente deve-se a mais uma dificuldade de compreender o portugês. De qualquer modo o amadorismo dos comentários contínua.

1 – Proposta

“Avaliar a efectividade do tratamento e dos auto-cuidados”.

Comentário:

“Falta de rigor e clareza. O Acupunctor avalia se o tratamento que ele próprio faz está a ser feito?[7]”.

Os autores dos comentários gostam muito de falar de falta de rigor e clareza (veja-se a parte final deste texto). A última parte do comentário pode ser devido a 2 factores: (1) total incompreensão da língua portuguesa ou (2) vontade de arranjar confusão aliada a uma total ausência de princípios éticos e de honestidade intelectual.

A verdade, é que uma criança percebe que o que está escrito, significa unicamente que o acupunctor deve avaliar a efectividade dos tratamentos que realizou (o paciente tem tido melhoras com este tratamento de acupunctura? Agravou ou melhorou com a toma das fórmulas receitadas?) assim como a realização dos autocuidados do paciente (tomou as fórmulas tal como foram prescritas? Alterou os hábitos alimentares recomendados? Alterou hábitos de vida recomendados para evitar factores desencadeantes dos seus sintomas?).

Poderíamos gostar de pensar, que muitos destes problemas se devem a uma incompreensão, bastante patológica, do português mais básico. No entanto, ó último capítulo deste texto leva-me a crer o contrário.

Ausência de Honestidade Intelectual

Nas competências e Capacidades do Acupunctor (saber fazer) é afirmado:

“Identificar os padrões de sono para determinar a sua causa e o seu efeito no desenvolvimento das síndromes”.

A este item foi colado o seguinte comentário:

“Deslocado por ser um entre milhões de parâmetros de igual interesse, por ex: ritmo menstrual, trânsito intestinal; horário da fome/sede, etc. Sendo impossível neste âmbito nomear todos os parâmetros melhor será que não conste nenhum.[8]

Em primeiro lugar fica a questão de saber quantos são os milhões de parâmetros. Não fosse anedótico o suficiente a suposta existência de milhões de parâmetros ainda somos honrados com a cereja em cima do bolo com parâmteros como o horário da fome/sede ou o ritmo menstrual.

Mas o mais grave é que os parâmetros mencionados, encontram-se descritos abaixo. E logo no final aparece o seguinte comentário:

“Conceitos vagos, subjectivos, imprecisos e sem cabimento num documento que deveria definir objectiva e criteriosamente as características gerais do Perfil Profissional do Acupunctor[9]”.

Desde quando é que a identificação dos padrões de sono, a influência dos factores do meio ambiente, os padrões alimentares, a história ginecológica, a história urogenital, etc… são conceitos vagos e imprecisos? Também não compreendo porque se opõem a um item criticando a ausência dos outros quando afinal eles estão presentes e são considerados vagos e imprecisos.

O último acto de puro cinismo e hipocrisia vem apresentado no capítulo da execução de um tratamento auxiliar onde se descreve a utilização da electropunctura e ao qual, é associado este comentário:

“Falta de rigor. A estimulação eléctrica não deve ser praticada de forma indiscriminada uma vez que tem contra-indicações, o que não está referido neste item”

No entanto, aquele item era só para falar dos diferentes tipos de tratamento e não do conhecimento das suas contra-indicações. Para as contra-indicações existe outro item especifico encontrado na página a seguir (onde consta a eletropunctura):

“Estes items (128 a 132) são descabidos pelo que devem ser retirados. Com efeito, o Acupunctor tem de conhecer “à priori” todas as contra indicações de qualquer terapêutica própria da sua profissão, pelo que instantaneamente nem sequer deve ponderar a possibilidade de usá-las quando são contra-indicadas[10]”.

Ou seja se não se fala das contra-indicações existe falta de rigor e se se fala das contra-indicações é descabido. Assim realmente não há quem consiga “fabricar secretamente” nenhuma proposta de regulamentação. Deixei estes últimos comentários para o fim, que aliados a outras análises como a falta de coerência dos argumentos propostos e discutidos noutros textos, assim como a análise condicionada de todo o processo (relembremos o problema com o termo holismo), as analogias forçadas entre serviço social e crenças místico-mágicas, demonstram uma grande falta de honestidade intelectual.

Aliada a esta falta de honestidade intelectual encontra-se todo um discurso amador e incompetente de alguém que pretende defender a saúde pública e os valores da nossa democracia.

Existem outros problemas ainda não discutidos como (1) as referências sistemáticas à aurículo-punctura de Nogier/processo de Bolonha/transferibilidade europeia, (2) o problema da representatividade muito aclamada com uma carrada de associações que pertencem quase todas à mesma pessoa e (3) a análise de como fica a acupunctura japonesa ou coreana neste processo (e não falo de acupunctura ayurvédica porque não faz parte da medicina ayurvédica, ao contrário do que se quer fazer crer naquela anedota a que chamam proposta alternativa, relativamente à caracterização da profissão e perfil profissional do acupunctor). Mas isto são matérias para outros textos.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS


[1] ACUPUNCTURA Perfil e Caracterização, pág. 17.

[2] ACUPUNCTURA Perfil e Caracterização, pág. 17.

[3] ACUPUNCTURA Perfil e Caracterização, pág. 27.

[4] ACUPUNCTURA Perfil e Caracterização, pág. 17.

[5] ACUPUNCTURA Perfil e Caracterização, pág. 27.

[6] ACUPUNCTURA Perfil e Caracterização, pág. 19.

[7] ACUPUNCTURA Perfil e Caracterização, pág. 21.

[8] ACUPUNCTURA Perfil e Caracterização, pág. 25.

[9] ACUPUNCTURA Perfil e Caracterização, pág. 25.

[10] ACUPUNCTURA Perfil e Caracterização, pág. 36.BannerFans.com
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O autor

nuno lemos

Licenciado em Medicina Chinesa pela Universidade de Nanjing divido o meu tempo entre prática clinica, aulas e formações de acupuntura, escrita e mestrado em radiofarmácia.

3
  1. Miguel says

    Ao contrário do que disseste nos outros 2 textos deste tópico, penso que também existe problemas na regulamentação de outras terapias, como por exemplo na homeopatia.

    Considero alguns dos teus comentários aos comentários bastante pertinentes, mas já sabes de há muito que a minha principal oposição a esta lei da regulamentação, vem da tentativa de controlo da acupunctura por uma escola/associação por imposição de dirigentes/conselheiros.

    Espero que essa parte seja alterada para melhor.

    Responder

  2. Jose Simoes says

    passeava por sites ligados à acupunctura e deparei com este, mas depressa uma tristeza que não veio do pulmão apareceu. Nós acupunctores todos temos apenas uma responsabilidade, usar todos os metodos fiaveis para tratar quem nos procura como ùltima tábua de salvação, porquê perder tempo a criticar “negativamente” este ou aquele. Fazer guerrra tornou-se facil, atacar antes que me ataquem a mim. Sejam honestos, o Prof Dr Pedro Choy, homem que sempre conheci ligado ao mundo oriental, Sempre a progredir para uma liberdade nas medicinas (liberdade/responsabilidade) sempre a transmitir a sua utilidade para o povo e ( O PROJECTO PAS) tratamentos gratuitos para o povo que não pode pagar, mas não quero promover mais a pessoa, mas sim a obra. Sou formado em MTC, claro PEDRO CHOY, SEMPRE, e ainda vou continuar a ser sempre aluno toda a minha vida. FALTA-VOS HUMILDADE, para admitir que os nossos pacientes lucrariam mais se ouvesse união de principios, não hà melhores ou piores, apenas aqueles que se preocupam e fazem o seu melhor com resultados nos pacientes sobreviveram a esta guerrita . Só os melhores se preocupam com os mais fracos . Esta vossês não sabem ” ÙLTIMA RAZÃO”. Sou o Simões. Obrigado pela leitura

    Responder

  3. nunol says

    Boas. Fico muito feliz com a sua participação, Sr.º José. Mas agradecia que colocasse criticas mais objectivas. Disse que não concordava e eu gostaria de saber o que foi que escrevi que leva ao seu desacordo. Agradecia que exemplificasse.
    Não está aqui em causa se gosta ou não do Sr.º Pedro Choy mas sims e os argumentos discutidos e apresentados tem razão de ser.
    Também gostaria que esclarecesse melhor a sua posição sobre “união de princípios”.
    Para terminar não vejo como através deste texto me possa acusar de falta de humildade mas aceito a critica.
    Abraço

    Responder

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