Prescrição da Matéria Médica Chinesa – Parte II

Prescrição da Matéria Médica Chinesa – Parte II


Em Medicina Chinesa considera-se que as patologias têm uma tendência de movimento. Essa tendência pode ser para cima, para baixo, para fora ou para dentro. Estas diferentes tendências não são uma adaptação da rosa dos ventos feita à pressa numa esquina. Mais uma vez são uma forma de analisar sob um ponto de vista clínico os sintomas de um paciente e a sua consequente evolução.

Sintomas como vómitos, soluços, hipertensão, cefaleia são típicos de um quadro clínico com tendência de subida. Numa paciente com prolapso uterino a tendência é de descida. Diarreia, gastroptose, prolapso anal são outras queixas caracterizadas por uma tendência descendente da doença. Plantas adstringentes têm a capacidade de interiorizar. Como vimos, alguns parágrafos acima, existe o sabor adstringente.

Existem padrões clínicos que tem a tendência de se aprofundar no corpo com sintomas como febre e arrepios com tendência para o desaparecimento dos arrepios e agravamento da febre, acompanhados de ausência de sudação ou maleitas cuja tendência é de exteriorização com sintomas como sudação diurna e nocturna. No entanto não iremos abordar muito a análise destes sintomas uma vez que nos obrigaria a ter conhecimentos de patologia externa em Medicina Chinesa, assunto esse que não será muito desenvolvido nesta obra.

Tal como aconteceu para as 4 naturezas o princípio base de tratamento, ou seja contrariar a evolução da doença, continua o mesmo. Logo usam-se drogas com efeito de elevar em doenças cuja tendência seja para baixo e drogas com efeito de afundar quando a natureza da doença seja para cima.

A Ephedra Sinica induz a sudação logo tem efeito exteriorizador. A Ephedra é classificada como uma planta que alivia síndromes exyternos. É usada para tratar invasões de vento-frio externo. A sua natureza morna indica que pode ser usada para tratar padrões de frio e os seu sabor picante indica que pode mover qi e sangue – logo pode dispersar –. O tropismo para o meridiano do Pulmão assinala uma especificidade a nível do sistema defensivo (wei qi).

Todas as drogas catalogadas nos padrões de vento-frio, com natureza morna e sabor picante, possuem efeitos exteriorizadores pois estimulam a sudação. Muitas, como a Ephedra, também estimulam a micção. Outros exemplos de plantas com capacidades exteriorizadoras seriam Ramulus Cinnamomi, Herba Asari, Radix Ledebouriellae ou Herba Schizonepetae, entre outras.

Existe uma relação próxima entre os efeitos das drogas e as suas naturezas e sabores. Desta forma temos que: (1) plantas de natureza quente ou morna e sabor doce ou picante tem efeitos de elevação e exteriorização e (2) drogas com natureza fria ou fresca e sabor salgado, ácido e amargo tem efeito de interiorização ou afundamento. Apesar de existirem excepções, esta é a regra geral.

A Flos Sophorae encontra-se aconselhada no tratamento de hemorragias por calor no sangue. A flor desta planta é catalogada como possuidora de uma natureza ligeiramente fria e sabor amargo.

Uma vez que existem hemorragias pretende-se uma planta com um efeito interiorizador e afundador. Como podemos reparar a natureza e o sabor desta planta são específicos para este tipo de problemas.

Resumindo: a natureza ligeiramente fria permite-lhe ser usada no tratamento de quadros de calor. O sabor amargo ajuda a eliminar calor. Logo esta planta pode ser usada para quadros de calor que afectem o sangue, por exemplo. Daí surge a indicação clínica de hemorragias por Plenitude Calor no Sangue. Também se percebe que a planta tem um efeito interiorizador.

Podemos ainda especificar mais as suas queixas. Dentro dos vários tipos de hemorragia que existem, esta planta, é usada para melenas (sangue nas fezes) e muito particularmente para hemorróides hemorrágicas. A razão desta especificidade está naquilo que designamos de tropismo e tem relação com o meridiano para o qual a planta apresenta afinidade.

A afinidade que uma determinada planta tem para um meridiano é importante para determinar os casos clínicos em que ela possa ter relevância. Já vimos como através da natureza, sabores e efeitos se classificavam as drogas. No entanto, em termos de sintomatologia falamos dos síndromes gerais como Humidade-Calor,Vazio de Yang, Vazio de Qi, etc… Ainda não definimos nenhum sistema de classificação que permita dividir as plantas de acordo com a sua acção em diferentes órgão. O que é que isto significa?

Pensemos assim: temos 2 plantas cuja função é eliminar Humidade-Calor. No entanto nada nos diz se uma planta é melhor que outra para tratar Humidade-Calor na Bexiga ou Humidade-Calor na Vesícula Biliar. Os sintomas destes 2 casos encontram-se no quadro abaixo:

Humidade-Calor na Bexiga Humidade-Calor na Vesícula Biliar
Polaquiúria, urina quente e de cheiro intenso, disúria, urgência em urinar, micção em jacto, dor no baixo ventre acompanhada de sensação de peso e calor e melhora com aplicações de frio, dor que agrava com pressão. Dor no hipocôndrio que agrava com pressão e calor, melhora com aplicações de frio, sensação de peso local, febre, irritabilidade, vómitos que agravam com ingestão de alimentos gordurosos, icterícia, face vermelha.

Nestes 2 casos muito diferentes, o padrão clínico é o mesmo mas as vísceras afectadas são diferentes. Por uma droga ser boa no tratamento de problemas urinários por Humidade-Calor não significa que o seja para a Vesícula Biliar ou outras vísceras ou órgão do corpo humano. Logo conhecer os meridianos em que actua determinada droga ajuda o terapeuta a especificar o seu comportamento clínico. A acção no meridiano define-nos a área do corpo em que determinada droga irá actuar.

A Herba Leonuri tem natureza ligeiramente fria e sabor ácido e picante. O sabor picante promove a circulação de qi e sangue e a natureza ligeiramente fria actua em quadros de calor.  O tropismo para o meridiano do Fígado indica que pode ser usada em problemas menstruais associados a padrões de estase de sangue com calor. O seu tropismo para o meridiano da Bexiga indica que é particularmente útil no tratamento de edema e dificuldade urinária.BannerFans.com
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O autor

nuno lemos

Licenciado em Medicina Chinesa pela Universidade de Nanjing divido o meu tempo entre prática clinica, aulas e formações de acupuntura, escrita e mestrado em radiofarmácia.

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  1. Canal ( Dr Canal - MV - Itapetininga Brasil) says

    Nuno, você tem algum trabalho com imãs? Magnetos?
    Parece que se aplicam pequenos imãs nos pontos Ah Shi com um bom efeito sobre a redução da dor ?? Canal

    Responder

  2. nuno lemos says

    Também já ouvi falar nisso mas não tenho nada. E nunca usei não tenho experiência pessoal nos mesmos.
    abraço

    Responder

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