Porque ainda não se encontra a acupunctura regulamentada?

Porque ainda não se encontra a acupunctura regulamentada?


Recentemente recebi 2 textos sobre o pagamento do IVA por parte dos acupunctores, sobre o qual escreverei mais tarde, o que me incentivou a escrever este artigo que fala sobre os problemas que se colocam à regulamentação da prática da acupunctura.

Creio que existem 3 factores principais, que explicam a demora na regulamentação da profissão de acupunctura. Esses 3 factores são: (A) oposição por parte de lobbies importantes como a Ordem dos Médicos; (B) lascismo e inoperacionalidade governamental e (C) inexistência de uma identidade cultural no seio da classe de acupunctores gerando atritos internos.

A oposição por parte da Ordem dos Médicos é bem conhecida. O seu cinismo igualmente. A acupunctura era terapêutica vudu até os médicos terem criado a Associação Portuguesa Médica de Acupunctura e esta ser incorporada nos cursos de medicina; os tratamentos de acupunctura só deveriam ser incluídos no sistema nacional de saúde se provada cientificamente a sua eficácia independentemente de alguns médicos aplicarem acupunctura para tratar problemas cuja eficácia não está comprovada. As manipulações feitas à lei que nos pretende regulamentar são bem conhecidas e quem não tem memória curta ainda se lembra da vontade dessa classe transformar os acupunctores em técnicos… ideia da qual ainda não desistiram.

O segundo factor diz respeito ao comportamento dos nossos governos. Os governos sucessivos têm tratado a acupunctura como tratam qualquer outra realidade do país: desleixo e incompetência. O Ministério da Saúde, de vários governos, tem-se atrasado sistematicamente na aprovação da regulamentação. Alguns desses atrasos devem-se a influências externas, como o lobby médico, ou a guerras internas como a actual discussão entre acupunctores sobre a regulamentação. No entanto, o governo pouco ou nada faz para acelerar o processo sendo preferível votá-lo ao esquecimento.

Finalmente temos os factores internos e que se devem à falta de uma identidade profissional comum a todos os acupunctores. As diferentes exigências curriculares formuladas pelas diferentes escolas estão na origem desse problema e os interesses particulares, nesta capital mundial das capelinhas que é Portugal, também não ajudam.

O problema é que nenhum destes factores tem resolução. Mesmo regulamentados, a Ordem dos Médicos continuaria a não aceitar a acupunctura. E quanto mais conseguirem atrasar a regulamentação, melhor para os médicos acupunctores. Os enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos começam a juntar-se à festa. A acupunctor corre o risco de se tornar o artista sem matéria prima para trabalhar.

Por outro lado o governo não vai melhorar a eficiência com que tem tratado o caso até agora. Por um lado não tem tantas chatices com os lobbys e, por outro, a regulamentação da acupunctura não é decisivo em períodos eleitorais pelo que não se sente pressionado.

Finalmente temos o problema interno que, por muito que os acupunctores desejem, também não terá resolução simples. Isto assumindo que poderá ter resolução a curto prazo. Os interesses das diferentes escolas e associações sobrepõem-se, numa troca de galhardetes focados em interesses pessoais, à análise imperativa de preservar a autonomia profissional e garantir a melhor formação possível. Muito dificilmente as cisões abertas neste processo trarão paz e união ao seio da acupunctura num futuro próximo, união essa necessária para contrariar o poder médico, como para pressionar eficazmente o governo a agir.

Estas são as razões que creio ainda não permitiram a regulamentação da acupunctura em Portugal. E acredito que mantendo-se estes 3 factores, como tudo indica que se mantenham, a regulamentação não chegue nos próximos anos. Até lá, os doentes serão cada vez mais chamados por outros profissionais que oferecem melhores condições, como fisioterapeutas, enfermeiros ou médicos, diminuindo o preço da consulta uma vez que não tem de pagar o IVA e oferecendo tratamentos fortemente comparticipados. O acupunctor perderá o lugar de domínio que é seu por direito.BannerFans.com
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O autor

nuno lemos

Licenciado em Medicina Chinesa pela Universidade de Nanjing divido o meu tempo entre prática clinica, aulas e formações de acupuntura, escrita e mestrado em radiofarmácia.

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  1. Rita says

    Olá Nuno,
    A minha vontade de discutir alguma coisa era tanta, que decidi reler os teus textos sobre a Regulamentação (porque será que escolhi este tema? lololol).
    Analisando o teu texto, à excepção do 2º ponto, os outros motivos apenas se aplicam à Acupunctura, portanto, não vêm justificar a demora na regulamentação da Lei 45/2003 que engloba outras TNC.
    Os médicos apenas se pronunciaram em relação à Acupunctura…
    Quanto aos atritos internos no seio da classe da acupunctura: estes atritos começaram em 2007, e a Comissão foi constituída em 2005. Como explicas este hiato temporal? Será porque foi dado um voto de confiança à Comissão?
    Em relação a este ponto, quero apenas referir a excepção da Homeopatia, na qual a proposta recebeu críticas construtivas e bastante pertinentes, as quais, na sua maioria, podem ser aplicadas a todas as propostas das outras TNC’s.
    Mas, continuando. Parece-me que os três motivos que apontas para justificar o atraso na regulamentação, seriam facilmente contornáveis com uma postura diferente por parte da Comissão.
    Como controlar a oposição da Ordem dos Médicos? Deixando que os Acupunctores efectuem uma contra-pressão.
    Como acabar com a inoperacionalidade do Governo? Deixando que os Acupunctores pressionem o Governo no sentido deste agir.
    Como acabar com os atritos internos? Informando os Acupunctores e deixando-os ser uma parte activa no processo de regulamentação.
    No entanto, o que é que vimos durante todo este processo? Bem, para dizer a verdade, não vimos nada, a não ser quando a proposta foi colocada em discussão pública parcial.
    O que ouvimos depois foi que a Comissão teve sérias dificuldades em levar a cabo o seu trabalho. Porque os Peritos “boicotavam” os trabalhos, porque a comunicação com o Governo é lenta, porque o processo foi todo muito atrasado pela morosidade das comunicações burocráticas.
    Tudo isto pode ser verdade, acredito que sim. Mas não teria sido mais fácil deixar estas informações passarem cá para fora? Penso que já não existem dúvidas quanto ao poder de um e-mail, de uma carta, quanto mais de centenas delas.
    Se todos os representantes das TNC se queixam do mesmo, porque é que nunca solicitaram o apoio dos seus representados? Porque é que nunca disseram “Ajudem-nos! Pressionem o Governo para que nos respondam em tempo útil. O nosso trabalho está a ser boicotado!”
    Ao contrário do que pensam os seus intervenientes, o trabalho de uma Comissão não é segredo de Estado, nem o facto de revelarem o andamento do processo colocaria em perigo a segurança nacional.
    Aliás, o nosso representante disse, e repetiu várias vezes, que mantinha as associações profissionais informadas, logo, a ser verdade, a justificação de não poderem falar sobre o processo, não faz sentido.
    A meu ver, havendo abertura e comunicação por parte da Comissão, os profissionais estariam mais unidos, haveria menos espaço para as informações menos correctas, haveria mais capacidade de controlar as pressões externas e os boicotes à regulamentação, haveria mais motivos para existir vontade política para regulamentar as TNC.
    Em Março fará 5 anos que a Comissão foi constituída. E termino com uma pergunta: Se os Representantes fossem representantes dos profissionais, e não das Terapêuticas, achas que ainda estaríamos a discutir este assunto?

    Bjs,
    Rita

    Responder

  2. nuno lemos says

    Boas Rita
    Finalmente encontraste um texto para discutir. lolololololololol
    Tanto quanto sei as TNC estão todas no mesmo barco, ou seja, se uma atrasar as outras atrasam também. Por isso um atraso relativo à acupunctura afecta todas as outras.
    Será que foi dado um voto de confiança à comissão? Talvez sim, talvez não. Sei que antes das confusões estalarem publicamente já existiam dissidências e problemas com associações do sector… que pertencem todas à mesma pessoa.
    Sim, concordo que a atitude da comissão poderia ter sido mais pública e ter intervindo mais junto dos interessados nesta regulamentação. Tenho levado umas berdoadas valentes no forum por estar a tentar isso…. lolololololololololololol
    E também acredito que uma postura mais pública, mais junto às pessoas poderia ter tido outros efeitos, especialmente na diminuição do medo que foi irresponavelmente propagado por algumas associações.
    Uma das grandees vantagens em dar uma visibilidade maior à comissão era exactamente por retirar muitos filtros que algumas associações colocam às informações recebidas da comissão e oferecer segurança aos interessados. Mas também não nos podemos esquecer que mesmo com um portfolio mais visível existiriam interesses contra… mesmo dentro da acupunctura.
    Pelo que sei tu tens feito um trabalho notável na tentativa de tornar mais visível e pública esta comissão e os dados sobre a regulamentação. lolololololol
    Creio que ainda iremos discutir este assunto por alguns anos mais. Infelizmente.
    Termino este comentário com más noticias: acabamos por concordar que seria melhor existindo maior abertura e comunicação por parte da comissão. lolololololol Estavas à espera que eu discordasse? lololol

    Responder

  3. Rita says

    Não estava à espera que discordasses, até porque a minha posição não deixa margem para discórdias uma vez que é indiscutível a razão que a suporta lolololololol.

    Parece que não percebeste bem o que eu disse em relação ao atraso… A Acupunctura não foi responsável pelo atraso, tirando o alargamento do prazo da discussão pública que foi inicialmente solicitado pelos acupunctores, mas que teve apoio de alguns profissionais de outras TNC’s.
    Mas não foram as nossas discussões internas que fizeram com que se passassem 3 anos entre a nomeação da Comissão e a divulgação dos documentos. Aliás, foram as nossas guerras internas que forçaram a divulgação dos documentos. Se não fossem as nossas guerras, as informações erradas que vieram a público, e a consequente necessidade de as esclarecer, provavelmente não teria havido discussão pública do documento, não teríamos conhecimento acerca do conteúdo das propostas, não teria havido nova nomeação de peritos, etc.
    Agora vou ver se há mais discussões para eu participar lolololol

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  4. nuno lemos says

    Sim mestre, eu concordo com a sua opinião porque é indiscutível a razão que a suporta…. lolololololololololol

    Agora há uma questão relevante porque se foram as nossas guerras internas que levaram à publicação dos documentos (eu acho que foi simplesmente o facto de as teres pedido) também foram as nossas guerras internas que levaram a que circulassem informações erradas.

    Mas sem dúvida que uma abordagem mais próxima dos interessados teria dificultado a acção de determinados grupos e tornado o processo mais célere.

    Quanto a novas dicussões presumo que já tenhas em teu poder um texto a ser publicado no blog que poderá ser gerador de discussões bastante interessantes. lololololol
    abraço e feliz natal

    Responder

  5. Rita says

    Só para esclarecer, quando referi que as nossas lutas tinham feito com que as coisas andassem e passassem cá para fora, referia-me a 2007 e a tudo o que se seguiu, que culminou com a divulgação da proposta de regulamentação e com a discussão pública, ainda que parcial. Continuo a achar que, se não fossem as guerras da acupunctura, nem teria havido uma discussão pública, nem as propostas elaboradas pela Comissão teriam saído da gaveta.
    Só mais um reparo, ainda em relação ao mesmo assunto, nem eu me limitei a “pedir” os documentos, nem o processo foi “simples”, como sabes lololololol
    Já estou a estudar para poder discutir o texto que aí vem!!! Faz lá isso…

    Bjs (essa do feliz natal não deve ser para mim)

    Responder

  6. nuno lemos says

    Eu posso estar enganado mas a proposta ia sempre ser divulgada e o representante sempre foi a favor de uma discussão integral do documento, tanto quanto sei.
    As guerras da acupunctura começaram a manifestar-se nessa altura mas não concordo que tenham sido responsáveis pela discussão pública do documento. Aquilo que me lembro é que foram responsáveis pela má compreensão que deram aos interessados do documento. lolololololol
    Fizeste ou não fizeste um pedido para obter os documentos? Sei que não foi simples e nem foi nesse sentido que usei o termo simplesmente. lololololololol
    Bjs e votos de um excelente natal… sim é para ti…lololol

    Responder

  7. Rita says

    Eu também posso estar enganada mas, segundo informações obtidas, há muito tempo que a proposta estava fechada numa gaveta no Ministério, e, que curioso, a discussão pública e a divulgação da proposta original coincidiram com as discussões no seio da acupunctura.
    Mas isto sou eu, que tenho a mania, porque no fundo tudo não passa de uma grande coincidência.
    Agora obrigas-me a desejar-te um feliz natal lolololololol

    Bjs

    Responder

  8. nuno lemos says

    A discussão pública iniciou-se com a divulgação da proposta tantro quanto sei. Houve uma precipitação por parte da APPA que começou a dizer coisas que não estavam na proposta original mas esta não foi publicada por isso. De qualquer forma posso estar enganado.
    E o natal está a ser muito bom…. sem fumar… lololololololol
    Pelo que sei o teu natal também está a ser bom. E o ano novo? lololol
    bjs e um excelente ano novo

    Responder

  9. Rita says

    Só para esclarecer que não foi assim que as coisas aconteceram. Podes confirmar com o Dr. José Faro a dificuldade que a Comissão teve em convencer os responsáveis a divulgar a proposta na íntegra. E a necessidade/vontade da Comissão de divulgar documento na íntegra, e não apenas do capítulo em discussão, prendeu-se precisamente com a “precipitação” da APPA.
    Algumas das informações que saíram por intermédio da APPA já não constavam da proposta final, mas tinham constado do projecto de proposta.
    Continuo a dizer, não fosse todo o “barulho” gerado no seio da acupunctura, e não teria havido discussão pública.
    O Natal já acabou, ainda bem que é só uma vez por ano, e o ano novo espero que seja bem melhor que este!!! Mas vou mantendo-te informado, isto, claro, se não nos chatearmos aqui numa discussão qualquer lololololol
    Bjs e um excelente ano para ti também

    PS – Ainda bem que não tenho acções da Tabaqueira, se não, estaria preocupada :)

    Responder

  10. nuno lemos says

    acho que tens razão. A carta da APPA surgiu antes da publicação da regulamentação.
    Eu sabia que a comissão tinha feito pressão para que todo o documento fosse publicado na íntegra, não me lembrava que fosse devido à pressão da carta da APPA.
    Lembro-me no entanto que deficiniram 2 meses para discussão e depois passaram para um ano. Eu pensava que os dois meses eram normais para discussão pública em lembrava-me que o ano a mais foi conseguido por pressão da APPA.
    E ainda estou sem fumar. lololololololololololololol E espero não dar muito mais dinheiro à tabaqueira. lololol Quem sabe ainda começo um PPR com o dinheiro do tabaco. Depois digo-te qual o banco para comprares acções. lolololololol
    bjs e um excelenete ano novo

    Responder

  11. Rita says

    1 ano?? Vai lá fumar um cigarro, que já estás a delirar. A DGS definiu 30 dias para a discussão pública, a APPA pediu 90, a DGS passou para 60, se não me falha a memória…
    bjs e tem calma!!!

    Responder

  12. nuno lemos says

    lolololololol
    Já passou algum tempo e começa a falhar-me a memória para algumas coisas. lolololololoolololololololol
    Mas ainda não fumei e não quero faze-lo.
    bjs e bom ano novo

    Responder

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