Parecer da Ordem dos médicos: resposta pessoal – parte II
Outro grande problema tem a ver com a idoneidade ética dos praticantes das Medicinas Não Convencionais (tal como a Ordem dos Médicos, prefiro a designação de Medicinas Complementares). Neste parágrafo vou cingir-me aos discursos vigentes na MTC.
Existe muito pouca informação credível acerca da capacidade terapêutica da acupunctura numa vasta gama de doenças. No entanto esta é vendida como se fosse milagrosa para tudo. Mas existem casos mais graves em que a publicidade aos tratamentos é completamente enganadora. A acupunctura, como tratamento principal, para deixar de fumar, pura e simplesmente não funciona. Como tratamento secundário existem muitas dúvidas e os melhores resultados chegam aos 30%. No entanto, o Sr.º Pedro Choy e Díscipulos LTA, vendem a acupunctura para deixar de fumar com 96% de sucesso. Isto até pode ser bom para algumas carteiras a curto prazo. Mas a longo prazo será um desastre para a credibilização profissional. Também já aqui escrevi sobre este problema.
Relembro este exemplo porque pretendo chamar a atenção para 2 aspectos: (1) falta de ética e marketing descontrolado sobre as reais vantagens da acupunctura pelos proponentes da mesma e (2) falta de ética da classe médica. Verdade seja dita: não é justo a comunidade médica atacar o Sr.º Pedro Choy por usar a acupunctura para deixar de fumar e calar-se quando a voce-presidente da Sociedade Portuguesa Médica de Acupunctura (SPMA) vem a público afirmar que faz tratamento de acupunctura para deixar de fumar.
Concordo com o bastonário da Ordem dos Médicos quando critica a falta de ética de muitos profissionais das Medicinas Não Convencionais. Também penso que ele se devia preocupar mais em resolver a falta de ética no seio das suas fileiras. Não é por fecharmos os olhos que a floresta deixa de arder. E duvido muito que seja lançado algum processo disciplinar aos médicos acupunctores por fazerem auriculoterapia, como se deixa perceber, no parecer. Sr.º Bastonário, enquanto a sua casa estiver suja não venha à casa dos outros dizer que precisa ser limpa.
Por outro lado, também é importante referir que a oposição dos médicos só veio ajudar à ostracização dos profissionais deste tipo de terapêuticas, mantendo-os à margem da lei e permitindo que todo o tipo de pessoas se aproveitassem da situação. Se queremos acupunctores responsáveis precisamos criar uma comunidade regulamentada, com formação científica e técnica credível, sob alçada dos Ministérios (representantes legítimos do interesse do povo) e não da Ordem dos Médicos. Para isso precisamos ser regulamentados. Caso contrário, qualquer pessoa tira cursos de fim de semana (ou nem isso), academicamente pobres, e diz as barbaridades que bem lhe apetecer (desde curar a fibromialgia em 2 sessões de acupunctura ou eliminar de vez ataques de pânico pressionando pontinhos no pulso).
Outro problema, sobre o qual me pretendo extender um pouco, diz respeito à relação entre acupunctor e médico, à importância dos seus diagnósticos e à autonomia profissional.
A relação proposta pela Ordem dos Médicos é de submissão, tal como todas as outras profissões de saúde. Só ao médico cabe fazer diagnóstico. Isto terminaria de vez com os acupunctores para dar origem aos técnicos de acupunctura. Uma das coisas que é mais atacada pela Ordem dos Médicos diz respeito à autonomia profissional dos acupunctores.
O problema situa-se no diagnóstico. A MTC tem um diagnóstico próprio que não invalida o diagnóstico da Medicina Alopática. Nem o torna secundário em nenhum aspecto. Face à profunda interligação destes problemas torna-se impossível analisá-los em separado. Contudo, tentemos focar-nos em algumas questões relativas ao diagnóstico:
Poderá o diagnóstico da Medicina Chinesa sobrepor-se ao diagnóstico da Medicina Ocidental? Com esta questão vêm coladas outras questões. A capacidade de fazer o diagnóstico está associada à capacidade de definir estratégias terapêuticas. Sobrepor um diagnóstico ao outro poderá significar sobrepor os respectivos princípios terapêuticos.
No entanto, não se procura sobrepor o diagnóstico da MTC ao diagnóstico médico. Nem se procura sobrepor as respectivas formas de intervenção. O diagnóstico médico continuará de primordial importância no seio do Sistema Nacional de Saúde, tal como sempre aconteceu.
Contudo, o acupunctor precisará sempre do seu diagnóstico de forma a definir a sua melhor estratégia de intervenção. Não se trata de roubar nada aos médicos mas sim de preservar a autonomia tão necessária para o acupunctor fazer o seu trabalho correctamente.
Considerar as diferentes naturezas dos diagnósticos em causa, seria o suficiente para saber que lidam com análises diferentes e não antagónicas. O problema não está em conhecer as naturezas do pensamento de cada uma destas artes mas sim de preservar uma hierarquia social que beneficie a classe médica. Os argumentos resumem-se no fundo a uma luta de classes.
Mesmo no seio das intervenções clínicas é perfeitamente compatível integrar medicina ocidental com medicina chinesa. Os tratamentos de acupunctura não se incompatibilizam com os tratamentos médicos. Na realidade, até podem potencializá-los.
Relativamente à matéria médica (uso de produtos de origem animal, vegetal e mineral com propriedades terapêuticas), podem levantar-se questões como saber se a toma de determinadas drogas poderão interagir com os medicamentos. Contudo, este problema, só será resolvido garantindo uma formação credível dos diferentes profissionais e um trabalho conjunto desses mesmos profissionais. De qualquer forma, os medicamentos ocidentais têm sempre preferência.
Em muitas situações, a matéria médica pode ser usada juntamente com a medicação ocidental para melhorar a sintomatologia ou efeitos adversos de determinado tratamento. Uma área que tem conhecido bastante expansão tem sido o uso de matéria médica no tratamento de pacientes oncológicos, onde esta ajuda a combater muitos dos efeitos secundários da quimioterapia e radioterapia.
Novas questões, como saber se a decisão médica de aconselhar um doente para acupunctura implica submissão do profissional, também são importantes. Creio crucial, os médicos terem conhecimentos sobre o que faz ou não faz a acupunctura. Desta feita estarão em condições de poder aconselhar da melhor forma o seu doente. Encaminhar um doente para uma determinada especialidade (mesmo fora da medicina ocidental) não é o mesmo que dominar essa especialidade.
Saber se uma determinada intervenção terapêutica é eficaz ou saber como se aplica essa intervenção são coisas diferentes. Um médico de clinica geral poderá enviar o seu doente para o cardiologista. Mas isso não significa que o médico de clinica geral tenha direito a controlar a autonomia profissional do cardiologista. O problema, mais uma vez, é que falamos de autonomia profissional para profissionais não médicos. Voltamos à luta de classes.
A tentativa de controlar a autonomia dos acupunctores fica bem expressa quando a Ordem dos Médicos afirma que “Estes profissionais apenas poderão exercer as suas práticas em doentes com indicação médica para tal, devendo ter a preparação suficiente para reconhecerem todas as situações nas quais as terapêuticas que utilizam não tem aplicação, são ineficazes ou podem esconder situações de grande gravidade, devendo nesses casos e de imediato entregar o utente aos cuidados da medicina cientifica.”
Este parágrafo é relevante. A primeira parte defende o exercício da profissão sob indicação médica para tal. Aconselhar um doente a ir à acupunctura ou subordinar a prática do acupunctor são coisas diferentes. Por outro lado a palavra final sobre se deverá ou não fazer acupunctura, não cabe ao médico e sim ao acupunctor. O médico, quanto muito poderá encaminhar o doente.
A frase acaba por perder sentido porque, se por um lado afirma que os acupunctores só podem exercer sobre supervisão médica, por outro afirma que em casos graves o paciente deve ser entregue aos cuidados da medicina científica. Mas o doente já vem da “medicina científica” e já está a ser acompanhado pela “medicina científica”. E acabamos sem perceber o que é “Medicina Científica”. Ou para que servirá este nome futuramente (relembro que este texto foi escrito em 2001 e que entretanto surgiu a chamada acupunctura médica). Esta última frase tem sentido quando falamos do medo médico de perder doentes. A acupunctura não existe para rivalizar com a medicina ocidental. Quanto muito, pode ser usada para complementá-la. As consultas de acupunctura não implicam o abandono do acompanhamento médico.
Finalmente gostaria de referir um outro problema relativo ao que os médicos chamam de fitoterapia. Parece que os médicos percebem tanto desta área quanto muitos iluminados de fim de semana que criticaram o processo de regulamentação. Fitoterapia implica o uso de plantas medicinais. No entanto, na MTC, usam-se produtos de origem animal e vegetal. Esta vertente terapêutica da MTC designa-se de Matéria Médica.
E só podem ser os especialistas em MTC a prescrever Matéria Médica porque só eles sabem como ela se prescreve. Os médicos não tem qualquer tipo de conhecimento para o fazer. Tentar colocar a “fitoterapia” fora desta lei e tentar incorporá-la nas funções médicas é um abuso de poder. Os próprios médicos seriam obrigados a aprender o diagnóstico da MTC (coisa considerada como falsa pela Ordem, para as poder prescrever).
Para terminar em tom de piada: o facto de se ter escrito fitoterapia implica que o especialista em MTC só poderá prescrever produtos de origem animal e mineral?


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filipe gonçalves says
Pelo menos podemos receitar vitaminas e minerais. Já não é mau.
Além disso vamos ter que aconselhar os doentes a deixarem de comer legumes e frutas, porque afinal é fitoterapia, ou então temos que pedir autorização ao senhor doutor para o paciente comer uma salada.
Isto é inadmissivel.
Durante anos dizem que os chás e suplementos não fazem nada e agora já são eles que em exclusivo podem receitar?
Chamo a isto: OPORTUNIDADE DE NEGÓCIO.
Ana Maria Carneiro A lves da Silva says
Tenho 46 anos e estou com artrose na minha coxa esquerda de vido a um tombo que levei em criança.gostaria de saber se acupuntura seria bom para o meu caso,tomo faximim,1 sache por dia por ordens medicas .
nuno lemos says
Se se refere às dores provocadas pela artrose a minha opinião é que a acupunctura seria boa no seu caso. Efectivamente a acupunctura é extremamente boa no tratamento da dor.
Caso deseje consultar-se comigo clique no seguinte link:
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Caso não se possa tratar comigo aconselho que procure na sua área de residência um acupunctor com uma sólida formação técnica.
as melhoras e votos de um bom ano novo