Parecer da Ordem dos Médicos: resposta pessoal – parte I
Em 2001, a Ordem dos Médicos, apresentou um parecer, à Comissão Parlamentar de Saúde, dando conhecimento da sua posição sobre os projectos de lei reguladores das medicinas não convencionais. Neste artigo, pretendo apresentar a minha resposta pessoal a esse parecer. Pode vir como surpresa, para muitos, o facto de eu concordar com muitas das críticas e oposições feitas pela Ordem dos Médicos.
No entanto, não irei abordar todos os items explanados no parecer médico. Falo, nomeadamente, do posicionamento de organizações internacionais relativamente às terapêuticas não convencionais. Em primeiro lugar porque não as conheço totalmente. Em segundo lugar porque se a Ordem dos Médicos refere que um deputado europeu a favor da homeopatia está a soldo de uma companhia homeopática, eles não referem quantos eurodeputados estão a soldo de companhias farmacêuticas ou lobbies médicos a quem não interessa a regulamentação. Como tal não irei abordar este tipo de assuntos.
Apesar de vir a ser um artigo longo, tentarei torná-lo o mais simples, para facilidade de compreensão do que está realmente em causa. Tentarei ser o mais honesto e sério possível, relativamente às minhas indignações (face à Ordem dos Médicos e a muitas práticas das medicinas não convencionais), aos meus sonhos (relativamente a uma comunidade de profissionais de saúde respeitados e respeitosos e desejosos de trocar saberes, trabalhando para uma única finalidade: o bem estar do doente) e às minhas preocupações (face a uma comunidade não convencional irresponsável e sem ética clínica e a uma comunidade médica desejosa de castrar os profissionais da sua autonomia profissional).
Uma das críticas do parecer médico incide no constante ataque que muitas destas práticas fazem à ciência. Dá particular relevância às influências de movimentos New Age. Até parece que vieram ler alguns artigos ao meu blogue antes de escreverem o parecer técnico. Infelizmente tem razão.
Muitos terapeutas das Medicinas Não Convencionais baseiam a sua visão do mundo numa perspectiva esotérica e não realista. A minha experiência de alguns anos nestas áreas traz-me à memória muitos episódios tristes. Muitos profissionais preferem negar a ciência ou usar a ciência (conforme for mais conveniente) para manterem um determinado sistema de crenças que os faça sentir bem.
“O Qi é uma energia que a ciência não consegue medir”. Esta é uma das frases, já criticadas por mim, muito usadas nestes meios. Não só O Qi não significa energia (é um conceito abstrato/funcional e, como tal, não objectivável) como a própria frase em si é um paradoxo. E um hino à iliteracia científica.
Se as pessoas sentem o Qi e se é possível tratar doenças usando “emanações de Qi”, então este torna-se um conceito objectivável. Por outro lado, e recorrendo a grandes doses de imaginação, mesmo se o Qi fosse uma energia totalmente desconhecida, seria possível observar o resultado das suas “emanações” de um qualquer curandeiro. Na ciência não é obrigatório ver-se para se saber que está lá. Ninguém consegue ver a gravidade ou os raios X. Mas sabemos que eles estão lá. Podemos ver as consequências das suas interacções com o mundo que nos rodeia. Com o Qi nada disto acontece. Não é medível de forma alguma… é mágico… e um atentado à Sinologia.
Por outro lado também se ouve muitas histórias de como se provou a existência do Qi. Por um lado não é medível, mas por outro já foi provado. Essas histórias são manipulações da ciência. Uns dizem que os franceses conseguiram provar a existência de meridianos num serviço de Medicina Nuclear e outros dizem que os cientistas conseguiram medir a corrente eléctrica nos meridianos.
Provar a existência de meridianos pela Medicina Nuclear é impossível. Em primeiro lugar a Medicina Nuclear fornece informações sobre a fisiologia dos vários órgãos ou sistemas do corpo. Para um fenómeno fisiológico existir é necessário ter uma estrutura anatómica. È necessário conhecer essa estrutura e a sua bioquímica. A Medicina Nuclear usa radiofármacos (núcleos radioactivos acoplados a uma molécula química com afinidade para um determinado tipo de células). Com isto podemos encontrar neoplasias ósseas ou fazer marcação de eritrócitos. Usar a Medicina Nuclear para estudar os meridianos implicava conhecer a bioquímica subjacente à sua estrutura anatómica. Caso contrário não se saberia o que se estava a radiomarcar.
A história da medição de correntes eléctricas nos meridianos é ainda mais engraçada. Chegamos à conclusão que o Qi não é uma energia (potencial ou cinética) mas uma força (electromagnetismo). Por outro lado é sempre bom saber que estas medições são feitas em regiões do corpo onde os meridianos correspondem ao trajecto de nervos do Sistema Nervoso Periférico. Quando o meridiano se localiza no nervo apresenta uma determinada corrente eléctrica. Quod Erat Demonstrandum.
Estes exemplos são demonstrativos da forma como o pensamento New Age manipula a ciência ou tenta abusar desta. Neste sentido, a Ordem dos Médicos, tem razão ao considerar isto um ataque à ciência. Falham, contudo, quando não sabem perceber que isto não só é um ataque à ciência mas também à Medicina Chinesa. Os conceitos base da MTC são manipulados e deturpados de forma a fazer-nos crer num mundo energético-esotérico. O que os profissionais “não convencionais” não percebem é que com este tipo de manipulações nunca mereceremos o respeito que exigimos.
Este erro é patente nas várias análises que a Ordem dos Médicos fazem. Por exemplo eles consideram a Acupunctura como Medicina Complementar e depois falam de Medicinas Tradicionais. A acupunctura é um tratamento da MTC, classificada na OMS, como Medicina Tradicional. Mas os médicos confundem isto e juntam tudo no mesmo saco. Florais de Bach ou diagnósticos com base na MTC (uma medicina Tradicional) são tudo a mesma coisa. Mistura-se tanta pirite ao ouro que fica difícil, aos cientistas, distinguir o que realmente tem valor e fica fácil, aos terapeutas, vender tudo como ouro.
A MTC é abusada pelas Medicinas Alternativas, mas não significa isto que não seja, realmente, uma Medicina Tradicional. Por outro lado a MTC apresenta um conjunto próprio de terapêuticas e um pensamento clínico que lhe permite diagnosticar uma determinada condição clínica sem ter influência no diagnóstico médico. Este é outro problema levantado e que será discutido posteriormente.
Os ataques à ciência ultrapassam as manipulações da MTC, pois englobam outras áreas. Uma delas, muito atacada, e com razão, pela Ordem dos Médicos, é a homeopatia.Já escrevi sobre Matéria Médica e Homeopatia neste blogue, pelo que não irei abordar o assunto novamente. É importante notar que este projecto de lei não separar o trigo do joio, no sentido que não distingue práticas não médicas válidas de práticas não médicas inválidas. A homeopatia ainda tem muito para provar… se realmente o conseguir fazer.
Porém, estas histórias não falam do esforço que tem sido feito no sentido de aumentar a formação científica de profissionais devidamente credenciados. A carga horária de disciplinas de foro científico dos cursos tem sido aumentada e até tem levantado críticas por parte de alguns futuros alunos. Estatística, Anatomia, Biologia e fisiopatologia são disciplinas dadas aos alunos da ESMTC (Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa), por exemplo. Ainda há muito a fazer, sem dúvida. Mas dificilmente será feito se a acupunctura não for regulamentada e cursos idóneos homolgados.
Sem apoios do estado é difícil conseguir definir um bom currículo e arranjar profissionais para dar este tipo de aulas, sem regulamentação é difícil obrigar os cursos a terem uma determinada carga horária que satisfaça as necessidades de formação e é impossível controlar a formação dos profissionais do sector. A minha experiência de professor diz que quando levantamos dúvidas aos alunos e os inserimos no pensamento científico eles começam a abandonar as visões esotéricas que os conduziam e procuram aumentar os seus conhecimentos.
Quando terminei o curso, fiz uma tese de licenciatura baseada na comparação do sistema de meridianos com o sistema nervoso e fui gozado ou paternalizado por alguns colegas. Actualmente, a grande maioria dos meus alunos exige que isso se ensine nas aulas. Quando a ciência fecunda nos nossos cérebros é impossível abortá-la. Mas sem regulamentação, desta área, é impossível fecundar o pensamento científico nas mentes inquisitivas de muitos alunos. Crucial será referir que o conhecimento da acupunctura não passa unicamente pelos conhecimentos científicos. Na realidade ela tem um diagnóstico e uma base de saberes próprias que também devem ser ensinadas, obrigatoriamente. A acupunctura médica não existiria se não fosse pela teoria dos meridianos. Mas este assunto será discutido mais à frente.


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