O discurso esotérico da medicina chinesa: quando o pensamento religioso se sobrepõe a uma análise crítica II

O discurso esotérico da medicina chinesa: quando o pensamento religioso se sobrepõe a uma análise crítica II

Surge agora uma pergunta. O que é o Qi? Qual a importância deste conceito na medicina chinesa, em termos de prática clínica?

Perguntar o que é o Qi é uma pergunta que pode facilmente enganar. Isto porque a resposta mais acertada seria, provavelmente, que dependeria do contexto. Na realidade termos como Yin, Qi e Yang não tem tradução noutras línguas porque podem significar várias coisas em contextos diferentes. Por exemplo o yang pode significar fogo e o Yin água. Mas dentro da água o Yang pode ser considerado como vapor de água e o Yin como gelo. Além disso o Yang pode representar outras coisas que nada tem a ver com a água ou o fogo como dia, verão, homem, imaterial, etc… Com o Qi acontece algo semelhante. Podemos considerá-lo como imaterial ou esotérico, ou usá-lo, mesmo, como um substituto de Deus. Mas nunca num contexto clínico como é o contexto em que a medicina chinesa se insere. Permitam-me apresentar 2 exemplos clínicos:

1 – quando se refere que um paciente tem Vazio de Qi do Pulmão não se diz que ele tem um vazio do “oposto dos opostos” no pulmão. Diz-se unicamente que o paciente apresenta tosse de som fraco, tosse produtiva com expectoração fluida, respiração curta, voz fraca, agravamento destes sintomas com esforço físico, língua pálida, pulso fino, etc… Neste contexto clínico o Vazio de Qi do Pulmão não é mais do que um conceito abstrato que pretende definir um conjunto de sintomas muito específicos.

2 – quando se refere que um paciente sofre de gastralgias por Estase de Qi do Fígado não significa que ele tem uma Estase do “imaterial” do Fígado ou uma Estase “daquilo que pode ser sentido mas não pode ser estudado” do Fígado. Significa, unicamente, que o paciente apresenta gastralgia tipo distensão que pode irradiar para a direita, agravamento dos sintomas com estados de stresse ou irritabilidade, pulso tenso, etc… Novamente, observamos que o Qi é um conceito abstrato que visa denunciar um conjunto classificar um conjunto particular de sintomas.

Os exemplos que acabei de dar podem parecer ridículos à primeira vista. Mas para mim, que tenho alguns anos de ensino e de prática nestes meios são do mais revelador. É raro encontrar um terapeuta, dedicado a uma abordagem esotérica da medicina chinesa, que saiba discutir diagnóstico e fundamentar o seu discurso clínico. A sua linguagem envolve muitos conceitos orientais, típicos da medicina chinesa, mas quase nunca são capazes de trocar esses conceitos por sintomas e sinais clínicos. Na realidade a grande maioria não consegue fazer um diagnóstico minimamente desenvolvido. A abordagem esotérica serve unicamente para dar uma aura de credibilidade à ignorância de muitos dos praticantes desta arte milenar.

Nestes 2 casos clínicos é notável a inutilidade da abordagem feita anteriormente por muitos preponentes de uma realidade energética (leia-se esotérica) do paciente. Mas este problema coloca-se no âmbito do diagnóstico. E em relação ao tratamento? Em relação à selecção de pontos uma vez que se relacionam directamente com o Qi? Mais uma vez a gritante ignorância acerca dos métodos de selecção de pontos e dos princípios de tratamento em acupunctura se vê mascarada por um discurso superficial e sem conteúdo. Exemplos práticos e clínicos não faltam… infelizmente.

Um dos erros mais notáveis que se prega a 7 ventos é «sentir-se o ponto». Um profissional da área que não seja capaz de “sentir” o ponto nunca irá ser um bom acupunctor. Como professor de acupunctura não tenho medo em afirmar que o importante em acupunctura é saber seleccionar os pontos e não ”senti-los”. Várias são as razões que me levam a fazer esta afirmação.

1 – existem 364 pontos regulares. Por pontos regulares compreende-se pontos com uma localização anatómica precisa, indicação clínica específica e pertencentes a um meridiano. No entanto existem milhares de pontos extra que são caracterizados por não pertencerem a nenhum meridiano, apesar de terem uma localização anatómica precisa. Muito dificilmente alguém no planeta conhecerá a localização exacta de todos os pontos extra. Pergunta: quem me garante que eu estou a sentir um ponto de acupunctura regular e não umas dezenas de pontos extra à volta desse ponto? Porque é que se o importante é sentir o ponto é dada uma localização anatómica tão precisa do mesmo? Bastava dizer que o ponto se encontrava algures naquela região e não era preciso entrar em pormenores anatómicos como faz a topografia dos meridianos e pontos. Mas mantinha-se o problema de saber qual era o ponto que se estaria a sentir.

Ainda existem 2 outros problemas graves ao “sentir-se” os pontos de acupunctura. Se os pontos regulares se podem sentir, então qual a razão de termos vários terapeutas, muito desenvolvidos energeticamente, a sentirem os mesmos pontos, nos mesmos pacientes, em locais diferentes? Inventa-se a teoria dos pontos activos. O que esta teoria realmente interessante diz é que: os pontos não são estáticos, eles movem-se. Um pouco para cima, um pouco para os lados mas… «eppur si mueve».

Fica difícil compreender como se conseguiu definir uma localização anatómica dos mesmos se eles não param quietos. Também é um pouco complicado definir o percurso dos meridianos quando ficam uns perto dos outros e os pontos alteram de posição constantemente.

Daqui sai uma boa notícia para os alunos que vão fazer exames de topografia de meridianos e pontos: quando um professor vos disser que marcaram o ponto no local errado já sabem o que têm a responder. Nem percebo porque se chumbam alunos a esta cadeira.

Finalmente temos uma curiosidade dentro da medicina chinesa muito interessante. É que a localização dos pontos de acupunctura não é unânime nas diferentes escolas. Por exemplo algumas escolas referem que o ponto 37VB fica no bordo posterior do peróneo. Mas outras referem o bordo anterior do mesmo osso. Como se explica estas diferenças se os pontos se podem sentir tão bem? A resposta é simples: quando os iluminados de uma escola vão sentir o ponto ele move-se para o bordo anterior e quando chega a vez dos iluminados da escola rival ele move-se para o bordo posterior. E com estas lógicas lá vamos nós enfrentando o cruel mundo objectivo existente à nossa volta.

2 – o problema de “sentir” o Qi coloca-se a 2 níveis na acupunctura: (1) “sentir” o ponto já mencionado atrás e (2) passar o Qi pela agulha. Ou seja passar a energia boa para o ponto. Este tipo de crença acaba regra geral com a afirmação «a intenção é que conta». Mais uma vez considero este tipo de crenças extremamente prejudiciais para uma boa prática clínica. Relembro um episódio em que um aluno ao não compreender um protocolo feito por um professor perguntou para que serviam os pontos seleccionados (alguns dos pontos não tinham muito a ver com aquele caso clínico) ao que o professor respondeu: «a intenção é que conta».

Por mais ridículo que possa parecer o professor não sabia justificar porque tinha seleccionado aqueles pontos nem sabia explicar o protocolo completo. Qual a melhor maneira de esconder a nossa ignorância? Basta reclamar o nosso direito divino a dominar as maravilhas energéticas do Qi. «Não faço a mínima ideia de como construir um protocolo de acupunctura? Não faz mal basta eu passar boas intenções para os pontos escolhidos e o paciente fica bom. Holismo acima de tudo». Sempre é mais fácil do que aprender acupunctura a um nível profissional.

Para terminar gostava de deixar um pequeno desafio a todos os “passadores” de energia: tratem um paciente com dor no joelho com o ponto Yintang (localizado entre as sobrancelhas. Este ponto é usado para tratar rinite, sinusite, insónia, agitação psíquica, cefaleia frontal). E lembrem-se «a intenção é que conta».

palavra-passe: medicina chinesa, acupunctura, qi, esoterismo, sintomas.BannerFans.com
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O autor

nuno lemos

Licenciado em Medicina Chinesa pela Universidade de Nanjing divido o meu tempo entre prática clinica, aulas e formações de acupuntura, escrita e mestrado em radiofarmácia.

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  1. carolina itien says

    Boas Nuno, Esse é um ponto interessante venho acompanhando o blog e em relação ao pontos voçê postou sobre os pontos e sua utilização com referencia a sindrome na verdade os pontos possui o nome referente a sua localização ou ao seu uso mais uma vez vem o problema da tradução uma vez que determinadas palavras são substituida por outra como no caso do E 36 足三里 – 里 li é uma medida de tamanho(atualmente só utilizada para algumas coisas), alguns segue o nome anatomico em chines mas tem uns que só por Deus voçê adivinha o que é,lololo como os encontrado no Neijin se refere a labios (飞们-fei men- porta voadora), nariz (明堂-ming tang-¨lugar reluzente¨).Em relação a localização tenho uma triste noticia realmente a discrepancia quanto a sua localização e isso ocorre na Asia tambem porem uma coisa eles concordam voçê pode ¨errar ¨para cima ou para baixo mas não pode errar o trajeto do meridiano, a explicação deles é que atraves de pesquisa a discrepancia tambem apresentava resultado uns mais outros menos e cada um com suas justificafivas então quando alguem resolve escrever livro de acupuntura (ou melhor traduzi-lo) segue uma linha de pensamento sem avisar o leitor que quando lê outro, fica meio perdido.Já os pontos extra os que são registrados oficiais nos centros de pesquisa eles fazem anotaçôes por menores e quando percebem que uma certa sindrome apresentam determinada sensibilidade em determinado lugar eles abrem uma pesquisa para isso e é um longo caminho…….os pontos extras muitos são em lugares para diagnosticos palpatorios outros como (澜尾 – LAN WEI) são pontos com registros mais antigos.Quanto a sentir o ponto fiquei na duvida sobre o que esta a falar é sobre o de qi???(的气).Quanto a seleção de pontos realmente devemos ser coerente e me desculpe mas naquele topico antigo seu sobre o paciente que apresentava segundo tu umidade e frio no figado(perdoe se estiver enganada pois não me lembro) e sua principal queixa era o formigueiro no braço, concordo com os pontos do braço porem um vez que tu definiste a sindrome porque não usar pontos referente a sindrome?Tem realmente uns erros como esse que tu falaste do yin tan que são gritante mas tem outros tambem menos visivel porem de mesma proporção, não estou aqui para fugar ninguem nem é minha intenção mas se quisermos aprender e somar algo devemos falar claro.Abraços.

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  2. nuno lemos says

    Boas Carolina.
    Os nomes dos pontos variam muito. Sem dúvida que além dos síndromes, também recebem nomes pela sua localziação anatómica, pelas sintomas que tratam ou pela sua ordem de sequência no meridiano. Sobre esse assunto creio que irás gostar de ler os seguintes textos:
    http://acupuntura.blogas-pt.com/category/3medicina-tradicional-chinesa-mtc/33acupunctura-acupuntura/topografia-dos-pontos-e-meridianos/
    Em relação à localização: é verdade que existe a vertente que diz que acertar no ponto não é importante, o que realmente importa é acertar no meridiano. No entanto, o problema com os pontos 37VB é diferente, porque diferentes escolas advogam diferentes percursos. Neste caso falamos do bordo anterior e posterior do peróneo. Portanto, a localização do ponto, altera o percurso do meridiano.
    Por sentir o ponto falo em sentir o ponto com os dedos… ou sentir a “energia” do ponto como costumam dizer no ocidente.
    Quanto à selecção de pontos eu gostaria que me pudesses indicar qual o texto que referes. No entanto, no tratamento de problemas sensitivos eu costumo dar mais atenção à selecção de pontos de acordo com o sistema nervoso do que ao tratamento do padrão clínico. Dou mais atenção a isso quando uso matéria médica.
    abraço

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  3. carolina itien says

    Boas Nuno, interessante…….Talvez…. é apenas uma suposição……em relação Vb 37 , existe um metodo de inserção feito por eles (chineses) que é utilizado quando a area a ser inserida apresenta algum problema, por exemplo já vi inserção do shenmen pela pela prega do punho lateralmente, dito isso gostaria de saber se a direção e a profundidade desse ponto VB 37 nas duas posições…..Quanto a ¨sentir a energia do ponto¨ acho que não tive essa materia lololol, até aonde sei (e não é muito lololo) alguns pontos apresentam maior sensibilidade quando apalpados mas quem sente é o paciente e não os meus dedos lololo, existe sim uma vertente do qicong com acupuntura mais dessa não comento pois realmente desconheço já vi mas ver é diferente de entender.Existe tambem o de qi (的气)esse tambem é sentido na grande maioria pelo paciente……sinceramente sentir a energia dá impressão que ao tocar no ponto vou morrer electrocutada lolol, desculpa Nuno hoje acho que acordei mais alegre que o normal,é realmente a nomeclatura é uma das grandes barreiras para o estudo de acupuntura.Abraços.

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  4. nuno lemos says

    Boas Carolina
    Os métodos de inserção que referes são comuns a uma série de pontos independentemente de qualquer confusão que possa surgir a partir da sua localização. 41E, 7P, 20VG, Yintang, etc… são pontos onde existem diferentes técnicas de inserção – desde direccionar a agulha em várias direcções, a partir do ponto a puncturar o emsmo ponto a partir de locais diferentes -.
    Realmente existe uma corrente, mais ligada ao qi gong, que fala em sentir os pontos de acupunctura. A MTC fala disso. Na prática imensos chineses não lhe ligam absolutamente nenhuma. Depois veio a tradução errada de qi por energia e começou a falar-se em sentir-se a energia dos pontos e dos meridianos, etc… Esta versão ocidental é uma mistura de correntes esotéricas ocidentais e correntes misticas da MTC. Mas a MTC é mesmo o que mais está em falta. lololololololol
    A sensação “de Qi” que referes diz respeito à sensação de inserir a agulha. Depois de estimulada o apciente pode sentir formigueiro ou um choque eléctrico, por exemplo. essas sensações são chamadas “de Qi”.
    É sempre bom quando acordas mais bem disposta. lololol Sorrir dá mais anos de vida.

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  5. Maria Sousa says

    Bom Dia,

    -Como seria o ‘diagnóstico’ daqueles dois primeiros casos clínicos à luz de um ””esotérico”” a praticar MTC, e porque não é ele válido?

    -Os pacientes melhoram, nas consultas com esses terapeutas? E voltam?

    -Não haverão diferentes formas de se chegar ao mesmo sítio?….

    Cumps.
    MS

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  6. nuno lemos says

    Boas Maria
    - Não faço a minima ideia como seria o diagnóstico daqueles terapeutas. Mas se não souberem MTC certamente que não será o mais correcto.
    - Obviamente que não faço a minima ideia se os pacientes melhoram nas consultas desses terapeutas. Uns melhoram outros pioram. Na realidade, uma vez que a maioria dos pacientes vem às clinicas tratar dor e o tratamento da dor é bastante fácil até acredito que uma maioria de pacientes se sinta melhor.
    Mas se queres um exemplo de excelente profissionalismo por parte dos acupunctores mais virados para as energias aqui fica um:
    http://acupuntura.blogas-pt.com/indignacao-%E2%80%9Cenergetica%E2%80%9D-falsos-profetas-e-bolhas-inflacionarias-acupuntura-acupunctura/
    escusado será dizer que se esta pessoa soubesse MTC não teria este tipo de comentários. Não foi a primeira vez que isto aconteceu.

    Sobre existirem diferentes maneiras de chegar ao mesmo sitio. Não tenho dúvidas que existam. Mas este texto fala sobre os conceitos de MTC e a forma como são manipulados e não sobre diferentes caminhos que vão dar ao mesmo sítio.
    abraço

    Responder

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