Novas ideias de investigação em medicina chinesa recorrendo a técnicas imagiológicas
Nos textos passados onde abordei as investigações científicas no seio da medicina chinesa foquei-me principalmente na acupunctura e na existência ou não existência de meridianos assim como em alguns estudos que demonstram os mecanismos fisiológicos através dos quais a acupunctura possa operar.
Aflorei muito ao de leve alguma investigação existente ao nível da fitoterapia chinesa e da medicina nuclear, nomeadamente, a capacidade que alguns fitofármacos possam ter de melhorar ou agravar a marcação de eritrócitos em estudos muitos específicos da medicina nuclear. Também existe investigação (da qual ainda não falei) sobre as potencialidades ou contraindicações dos fitofármacos associados à medicação médica.
Mas hoje pretendo-vos falar de ideias novas em investigação. O meu propósito é fazer os profissionais da área interessarem-se por novas abordagens de análise cientifica à sua área assim como aumentar o interesse de leigos por este campo tão diminuto do saber humano.
A pergunta que faço é simples: quais as diferenças fisiológicas ou citológicas em 2 pacientes com a mesma doença ocidental mas com sintomas diferenciados dentro da medicina chinesa?
Para ser mais fácil começemos a diferenciação sintomática pela teoria base, ou seja, pela teoria Yin/Yang. Supondo que temos 2 pacientes com problemas pulmonares como bronquite ou asma. O diagnóstico do primeiro paciente, na medicina chinesa, é plenitude calor do pulmão e o do segundo paciente é vazio de Yang. A diferenciação sintomática é aquela que se apresenta no quadro abaixo.
| diferenças semiológicas diferenciadas em medicina chinesa | |
| Plenitude calor do Pulmão | Vazio de Yang do Pulmão |
| Tosse seca de som alto
Se produtiva com expectoração amarela e seca e difícil de expectorar |
Tosse produtiva com expectoração fluida e clara e som fraco |
| Respiração rápida e curta | Respiração curta, suspiros |
| Sintomas agravam com calor | Agravam com frio
Agravamento com esforço, astenia física muito pronunciada |
| Melhoram com frio | Melhoram com calor |
| Febre | Frio generalizado |
| Erosão mucosa bucal | |
| Face vermelha | Face pálida |
| Língua vermelha, seca, capa amarela | Língua pálida, inchada |
| Pulso cheio e rápido | Pulso profundo, lento e fraco |
| Hemoptises | |
| Voz fraca, cansa-se facilmente a falar | |
| Lentidão física | |
| Outros sintomas | Outros sintomas |
| Obstipação | Diarreia |
| Urina escura | Poliúria |
| Mau hálito | |
A questão começa a ser mais fácil entender quando ficamos a conhecer as diferenças sintomáticas. Porque é que algumas pessoas com bronquite desenvolvem os sintomas de plenitude calor e outras os sintomas de vazio de Yang? Porque é que umas pessoas são mais propensas a desenvolver quadros de calor e outras quadros de frio? O que se passa no organismo para tal acontecer?
Eu creio ter arranjado uma solução para estudar estes mecanismos fisiológicos que são essenciais para se compreender o diagnóstico em medicina chinesa. As plantas de fitoterapia chinesa são classificadas da mesma forma que são os sintomas (mais à frente publicarei textos sobre fitoterapia). Ou seja da mesma forma que temos de sintomas de frio e sintomas de calor também temos plantas de natureza quente e plantas de natureza fria. As plantas de natureza quente são usadas para tratar quadros de frio e as plantas de natureza fria são usadas para tratar quadros de calor. A natureza da planta contradiz a natureza do sintoma.
Logo, um primeiro passo seria seleccionar drogas de natureza quente e de natureza fria que tenham aplicação nos casos que pretendemos tratar. Do grupo de drogas usadas deveríamos seleccionar aquelas que apresentam efeitos clínicos mais fortes.
Destas últimas seleccionavam-se aquelas que apresentem menos princípios activos. Isto seria necessário na medida em que a lógica do estudo consistiria em marcar com um radionuclido esses princípios activos criando um radiofármaco. Os radiofármacos são usados em medicina nuclear para estudar a fisiologia de diversos órgãos. Consiste num radionúclido (um núcleo que emite radiação sendo o 99mTc mais usado) ligado a uma estrutura química.
Após conseguir fazer-se a radiomarcação seleccionavam-se 4 grupos de pacientes. 2 grupos com bronquite por Plenitude Calor do Pulmão e outros 2 com bronquite por Vazio de Yang do Pulmão. Os grupos seriam divididos de acordo com o esquema seguinte:
GRUPO 1 – plenitude calor marcado com plantas de natureza quentes
GRUPO 2 – plenitude calor marcado com plantas de natureza fria
GRUPO 3 – Vazio de Yang marcado com plantas de natureza quentes
GRUPO 4 – Vazio de Yang marcado com plantas de natureza fria
No final comparavam-se as diferentes imagens obtidas e estudavam-se as diferenças. Obviamente que um estudo destes não é tão fácil quanto faço parecer neste pequeno artigo.
São vários os problemas que se podem colocar. Em baixo enumero alguns:
1 – não existe nenhum estudo deste tipo e não há garantias de que venha a ter sucesso;
2 – é impossível fazer estudos in vitro e estudos em animais pois seria impossível fazer a diferenciação sintomática;
3 – em primeiro os novos radiofármacos teriam de ser testados em ratos para se poder estudar os seus mecanismos de excreção, por exemplo;
4 – já podem existir algumas teorias ou conhecimentos médicos que nos ajudem a explicar algumas destas diferenças (perdoem a ignorância do vosso amigo mas sou de medicina chinesa e não de medicina ocidental);
5 – poderia ser feito inicialmente um estudo aprofundado dos princípios activos das plantas usadas e procurar-se alguma relação entre esses princípios activos e a classificação de plantas em medicina chinesa;
6 – uma prescrição em medicina chinesa é composta por várias drogas o que torna o estudo mais dificil uma vez que aqui são analisadas as drogas em separado.
Estes seriam alguns dos problemas que poderiam aparecer. Mas, também é verdade, que são os problemas que tornam a investigação tão emocionante.


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