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Se queremos compreender a essência das diferenças entre medicina chinesa e medicina ocidental, somos obrigados a encarar o título deste texto com alguma seriedade. Há primeira vista afirmar que doenças diferentes terão o mesmo tratamento, parece ridículo. Quem no seu perfeito juízo trataria um síndrome do canal cárpico da mesma forma que trataria uma infecção urinária? Poderemos nós sequer pensar em tratar um caso de dismenorreia da mesma forma que tratamos um caso de dor cardíaca?

Em muitos casos é isto que se passa na aplicação da fitoterapia na Medicina Chinesa. Para o compreendermos, seremos obrigados a analisar esta afirmação. Não sob o ponto de vista de diferenciação de doenças ocidental, mas sim chinês.

Na Medicina Chinesa considera-se a existência de doenças (icterícia, vento no grande pé, cáries dentárias… tudo isto são doenças ou nomes de doenças em Medicina Chinesa) e de padrões clínicos. Uma mesma doença pode-se manifestar por diferentes padrões clínicos e doenças em diferentes fases podem descrever-se com padrões clínicos diferentes.

O que é, então, um padrão clínico? O que o diferencia da doença? Existe uma grande semelhança entre as doenças e os padrões clínicos. Ambos são formas muito úteis de catalogar sintomas e sinais clínicos. No entanto são formas diferentes e complementares de analisar esses mesmos sintomas e sinais clínicos. O padrão clínico consiste num conjunto de sintomas que definem o contexto em que uma dada queixa se apresenta. 2 pacientes com a mesma doença podem apresentar padrões clínicos diferentes. Uma mesma doença em diferentes fases, num mesmo paciente, pode apresentar-se por padrões clínicos diferentes.

Os exemplos a seguir podem ajudar a perceber melhor. No entanto, convêm sublinhar que as doenças apresentadas pertencem à medicina ocidental e não à medicina chinesa. Isto será feito de forma a facilitar a compreensão do texto e a torná-lo mais familiar para o leitor.

Vamos supor que temos 2 pacientes: o paciente A sofre de síndrome do canal cárpico e o paciente B sofre de infecção urinária. Tanto quanto sei, na medicina ocidental, os tratamentos para estas patologias são muito diferentes. Porque é que em Medicina Chinesa podem ser semelhantes? Porque apesar de serem doenças diferentes podem ter o mesmo padrão clínico.

Por exemplo, o paciente A pode ser diagnosticado com um síndrome de canal cárpico que se manifesta por dor que agrava à noite, dor tipo facada e melhora com movimento. O paciente pode acordar de noite e sentir necessidade de mover o braço e a mão. O paciente B, com infecção urinária, pode apresentar dor no baixo ventre tipo facada, dor ao urinar tipo facada, sangue na urina, ambas estas dores agravam durante a noite e melhoram com o movimento. É natural estes pacientes terem necessidade de se levantarem e passearem pela casa durante a noite para aliviar a dor.

Apesar das doenças serem diferentes os sintomas que as caracterizam são idênticos. Neste caso ambos os pacientes seriam diagnosticados com uma estase de sangue: (1) dor tipo facada, (2) agrava à noite e (3) melhora com movimento. Uma vez que a forma de classificar sintomas e a forma de classificar a matéria médica chinesa é a mesma e uma vez que ela se fundamenta na análise dos padrões clínicos temos, como consequência, que diferentes doenças podem ter o mesmo tratamento.

Os fitoterápicos (fórmulas complexas em que se juntam plantas com propriedades terapêuticas) usados nos 2 pacientes seriam muito semelhantes. Poder-se-ia observar pequenas alterações, mas estas seriam marginais, quando comparadas com as semelhanças. Na realidade qualquer fórmula fitoterápica que elimine a estase de sangue pode ser usada com alguma segurança nestes 2 casos. Então temos que doenças diferentes, tratamento semelhante.

Vamos supor que o nosso paciente B continua com a infecção urinária. Agora iremos compará-lo com outro paciente com infecção urinária. Em termos de pensamento médico ocidental, 2 pacientes com infecção urinária são 2 pacientes com a mesma doença e aos quais irão ser aplicados tratamentos muito semelhantes. No entanto, o novo paciente, ao qual chamaremos paciente C, apresenta dor ao urinar acompanhada de sensação de queimadura, dor que melhora com aplicações de frio, sensação de peso no baixo ventre, dor que agrava com pressão.

Neste caso, em particular, a fitoterapia usada nos 2 casos, será completamente diferente. O paciente B apresenta um padrão de estase de sangue (como vimos nos parágrafos anteriores), mas o paciente C apresenta um quadro de humidade-calor. A única semelhança é que ambos afectam a bexiga (víscera em Medicina Chinesa). Mas as diferenças nos sintomas que caracterizam a queixa (estase de sangue ou humidade-calor) é que serão determinantes na selecção da fitoterapia a usar. Se no paciente B queremos plantas que movam o sangue, no paciente C já se usam drogas que eliminem humidade e calor. temos, então, o caso de mesma doença, tratamentos diferentes.

Os padrões clínicos surgem como variações que se podem manifestar em determinadas zonas do corpo. Por exemplo, um padrão de humidade-calor pode manifestar-se na vesícula biliar com sintomas muito semelhantes à colecistite ou na bexiga com sintomas idênticos à infecção urinária. Mas para a Medicina Chinesa são sempre padrões de humidade-calor.

Um vazio de yang pode afectar o baço ou o coração. Apesar do padrão clínico ser o mesmo as doenças podem ser muito diferentes. Desde a desinteria à falência cardíaca. Mas o padrão clínico define muito do tratamento a ser efectuado. Um vazio de yin pode afectar o rim, o fígado, o coração ou o pulmão. um paciente com vazio de yin do rim irá apresentar queixas ou doenças diferentes de outro paciente com vazio de yin do pulmão. Mas o padrão clínico por trás dessas doenças é o mesmo.

Quando queremos comparar a medicina ocidental com a medicina chinesa e compreender as suas abordagens é necessário levarmos em linha de conta estes factores. No fundo estas 2 medicinas não são mais que 2 programas computorizados que há primeira vista parecem diferentes. Ao leigo podem ser inteligíveis. Ao técnico de informático (médicos e acupunctores) que compreenda a linguagem binária (sintomas) por trás da sua apresentação surgem como sistemas de pensamento clínico extremamente fiáveis e complementares.

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CATEGORIA : MTC - DIAGNÓSTICO TRADICIONAL CHINÊS / MTC - TEORIA BÁSICA / PADRÕES CLINICOS
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