Meridianos e História: implicações na actualidade – PARTE II

Meridianos e História: implicações na actualidade – PARTE II


As discussões actuais referem-se à existência real dos meridianos. Será que existem? Será que não existem? Esta discussão surge em consequência de um factor referido no último texto: os praticantes de Qi Gong referem sensação do Qi a circular pelos meridianos (entre muitas outras sensações como mãos quentes, irritabilidade, paz de espírito, sair do corpo ou, em alguns casos, regredir a vidas passadas). Eu, pessoalmente, não dou crédito a este argumento por várias razões.

Em primeiro lugar, falamos de sensações subjectivas e condicionadas culturalmente. Se ensinarmos uma localização errada de meridianos, a novos alunos, eles começam a sentir esses meridianos. Um exemplo prático está no percurso do meridiano da Vesícula Biliar na perna. Algumas escolas defendem que, alguns pontos deste meridiano, passam no bordo posterior do peróneo. Outras escolas defendem o contrário. Os praticantes de Qi Gong, de cada escola, sentirão os meridianos e os pontos onde lhes foram ensinados. Pelo menos até se convencionar um modelo universal, aceite por todos.

Em segundo lugar, historicamente temos vários exemplos de alterações dos meridianos. Estes tiveram pontos diferentes ao longo da história chinesa e tiveram percursos diferentes ao longo dos séculos. Historicamente os meridianos alteraram-se de acordo com convenções, baseadas na observação clínica, e não no conhecimento do Qi ou na sensação do percurso dos meridianos.

Basear a nossa análise, da existência de meridianos, principalmente nas sensações do Qi Gong é errado porque se deixa de fora os principais factores da formação desta teoria, nomeadamente: a observação clínica das doenças, a observação das diferentes sensações quando se faz acupunctura e da ignorância da fisiologia humana.

Finalmente gostaria de adicionar mais uns comentários, que creio úteis, para a História das Ideias Humanas.

Ao longo da escrita destes 2 artigos deparei-me com uma interrogação de relevo. A MTC, devido em parte, à sua ignorância acerca dos mecanismos neurofisiológicos, desenvolveu uma teoria com grande poder explanatório e interventivo clinicamente, mas sem substanciação científica.

Por outro lado os conhecimentos neurofisiológicos aliados do grande poder de análise do método científico conseguiram explicar alguns mecanismos de funcionamento da acupunctura (no futuro poderão explicar muitos mais) mas nunca foram capazes de desenvolver aquele tipo de abordagem. Ainda hoje em dia, é a teoria dos meridianos que nos ajuda a seleccionar os pontos de acupunctura.

Onde podemos definir o fim e o inicio da razão? Se, nos dias de hoje, desenvolvermos uma teoria sem validade científica mas capaz de intervir e ajudar o paciente, terá essa teoria validade? Como encarar o processo de validade científica quando o processo ajuda a explicar mas não define como tratar? E como encarar a teoria dos meridianos quando nos ajuda a tratar mas oferece explicações erradas dos mecanismos subjacentes ao seu sucesso? Acima de tudo, como podemos nós distinguir a fronteira da racionalidade com a irracionalidade?

Estas interrogações não se colocam na perspectiva do doente. Nesta perspectiva não interessa a linguagem nem as explicações. Só interessa o sucesso terapêutico. Mas para os terapeutas, médicos e cientistas que se debruçam sobre esta área é crucial poder definir aquilo que tem realmente validade. A acupunctura é válida? As teorias tradicionais que a sustentam são válidas cientifica ou clinicamente? Até agora esta última questão tem sido respondida com 2 sim ou 2 nãos categóricos. Pela primeira vez ela terá de ser respondida com um não e um sim. Que implicações trará esta resposta para o pensamento humano e para o desenvolvimento da ciência e da acupunctura?BannerFans.com
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O autor

nuno lemos

Licenciado em Medicina Chinesa pela Universidade de Nanjing divido o meu tempo entre prática clinica, aulas e formações de acupuntura, escrita e mestrado em radiofarmácia.

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  1. Carlos Sousa says

    Boa tarde,

    Sou aluno de acupunctura e encontrei este seu blog ao qual tenho prestado bastante atenção.
    Tenho vindo a aperceber-me de alguma rivalidade entre diferentes escolas, pelo que gostaria de saber, em primeiro lugar a sua opinião acerca desta problemática e também qual a escola a que pertence, para que possa perceber se o que tenho vindo a estudar se enquadra nas mesmas linhas de raciocínio.

    Com os melhores cumprimentos,

    Carlos Miguel Sousa

    Responder

  2. nunol says

    Boa tarde Carlos.
    Eu sou professor de acupunctura na ESMTC. Se pretender obter mais informações obre mim pode consultar a página anexa a este blogue, “O AUTOR”.
    Existe, de facto, alguma rivalidade entre escolas. Pessoalmente creio que o problema actual está mais relacionado com a disparidade, existente em termos de conteúdo curricular, entre as escolas. Existem cursos de fim de semana, que para mim, são inaceitáveis. Muita da rivalidade tem nascido desse problema.
    Quanto às linhas de raciocínio é preciso avisar que, mesmo dentro da mesma escola, existem pessoas com opiniões diferentes. A minha linha de raciocinio é simples: saber do que se fala, argumentar com lógica, e fundamentar as minhas afirmações. lol
    Abraço

    Responder

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