Meridianos e história: implicações na actualidade – PARTE I
No último artigo que versava sobre a criação da teoria do sistema de meridianos, expus os principais factores que levaram à sua criação. Actualmente geram-se muitas discussões sobre a validade deste sistema. Essas discussões perdem qualidade na medida que não analisam a formação desta teoria em termos históricos mas exclusivamente em termos de análise esotérica ou reducionista. Como mencionado, anteriormente, aquilo que pensamos estar a discutir relativamente à MTC e ciência não é mais do que um remake da batalha setecentista entre vitalismo e mecanicismo.
Uma das discussões mais acentuadas refere-se à existência real dos meridianos. Como vimos, esta teoria foi formada por uma mistura de análises clínicas precisas, muita criatividade e outra tanta ignorância acerca da anatomo-fisiologia humana.
Ao perceber a história da formação destes sistemas percebemos que as discussões sobre o Qi como uma energia que ninguém consegue detectar assim como as discussões sobre o suposto esoterismo do pensamento chinês são pura perda de tempo. Compreender a história significa compreender uma coisa: os chineses nunca se preocuparam com o método científico ou com a realidade. Eles trabalharam no sentido de desenvolverem uma teoria que permitisse explicar o mundo das doenças e intervir junto dessas mesmas doenças.
Os meridianos não foram construídos para serem validados cientificamente. Eles foram construídos para intervir clinicamente. Esta intervenção clinica foi tão forte que, mesmo que uma pessoa não goste desta teoria, se quiser praticar acupunctura com sucesso tem de recorrer a pontos de acupunctura e, muitas vezes, à teoria dos meridianos (mesmo sem o saber). Contudo, isto coloca um problema sério a resolver: podemos aceitar um modelo válido clinicamente mas sem consistência científica?
A resposta a esta pergunta não é sim nem não. Ela é diferente. A esta pergunta poderemos responder com um simples: não temos outra hipótese. Com isto não significa que a teoria dos meridianos seja a única teoria que possa ser usada ou que não se possam criar novas teorias.
Como vimos os meridianos foram criados de forma a juntar pontos em diferentes localizações do corpo, mas que apresentavam indicações clínicas semelhantes. Quando faço a combinação 30E-37E para tratar diarreia estou a usar um ponto local (30E) e outro ponto distal (37E). Com o tempo os chineses aperceberam-se que o ponto 37E tanto tratava problemas na perna (onde se localiza) como diarreia ou obstipação (que são problemas distais relativamente à sua localização). A melhor forma de explicar este fenómeno era criar uma teoria que permitisse ligar estes 2 pontos.
Uma vez que era uma teoria satisfatória, foi banhada de respeitabilidade e existência. Hoje em dia coloca-se em causa a sua existência. Mas a verdade é que, independentemente, de outras explicações possíveis para o funcionamento da acupunctura, quando um doente se dirigir a uma clinica terá de ser tratado através da teoria dos meridianos. A ciência pode informar-nos sobre os mecanismos neuro-fisiológicos da acupunctura mas é a teoria dos meridianos que permite seleccionar pontos para tratar as queixas do paciente.


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