Médicos, doutores e acupunctores…. Com técnicos no meio – parte II

CONSULTAS DE ACUPUNCTURA COM DR. NUNO LEMOS. CLIQUE NA IMAGEM ACIMA

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Um termo usado pelo Marcos no seu comentário foi de técnicos. Mais especificamente afirmou:

“parece que os tecnicos em acupunctura tem vergonha de serem bons tecnicos, precisam usar o sombra do Dr(2)

Nesta afirmação estão subjacentes 2 problemas de grande relevância e poder de conflito. Um primeiro diz respeito ao uso do termo “técnico” e um segundo à necessidade de se associar o prestígio da profissão médica à nossa prática, como se ela não tivesse valor por si. Como o Prof.º (título pelo qual é mais conhecido!) Marcelo Rebelo de Sousa diria: “discordo do primeiro, concordo com o segundo”.

Discordo profundamente da aplicação do termo técnico pelo simples facto que os técnicos não possuem autonomia profissional. (Caso os leitores não saibam, o projecto lei contemplava o termo diagnóstico que foi retirado à última da hora e substituído por avaliação. Mais uma vez não se sabe quem tem este tipo de poder para poder manipular projectos de lei, desta forma, na área da saúde. Contudo, o trabalho foi feito à pressa e, no artigo 3, ainda vinga o termo diagnóstico. Pode dizer-se que agora, podemos fazer avaliações e diagnósticos!) Técnicos de radiologia, de radioterapia, de Medicina Nuclear, de Anatomo-patologia, de Ortóptica, etc… são profissionais de saúde, sem autonomia profissional. São profissionais cujo trabalho diário está sujeito ao poder médico. Não possuem controle sobre o seu trabalho, sobre a sua evolução.

Além de ser acupunctor, sou aluno finalista de Medicina Nuclear e sei do que falo neste aspecto. Faço processamento de imagem se o médico do serviço achar que eu deva faze-lo. Trabalhar em diferentes serviços com diferentes médicos significa ter condições de trabalho muito diferentes porque quem define essas condições são os médicos.

Como acupunctor não admito a um médico que me venha dizer o que tenho de fazer: que pontos seleccionar, quantidade de agulhas a usar, como tratar um doente, etc… Os meus conhecimentos são regidos por um conjunto de princípios e conhecimentos que os médicos desconhecem (ou que não sabem aplicar!) e, independentemente, do que esses médicos acharem da minha prática (há alguns anos era vudu!) não tem direito de me roubar a autonomia profissional. Algo que me é dado pelo meu nível de formação e conhecimentos e não pelo prestígio de outra profissão de saúde.

Por outro lado é verdade que muitas pessoas desta área querem ser conhecidas como médicos pelo prestígio social e não pela devoção à profissão. Eu não me considero médico e cada vez que os meus alunos me vêm falar sobre ser médico ou não ser médico (questão existencialista para alguns!) aconselho-os sempre a dedicarem-se ao estudo e a esquecerem os títulos. Antes um bom acupunctor que um mau médico. E ninguém será bom acupunctor se passar mais tempo a pensar no título do que nos estudos.

Procuramos obter o título da profissão de saúde que mais criticamos, por mais ridículo que pareça. Por vezes não compreendo a razão de tantas críticas aos médicos e depois a defesa intransigente de ser médico. É, na minha óptica, um argumento ridiculum ad absurdum. Os médicos são maus porque são médicos (a medicina ocidental só trata sintomas!) e os médicos são maus porque não nos deixam usar o título deles (usurpação de poder social!).

Na fase actual em que se discute a regulamentação da acupunctura e não a regulamentação da medicina chinesa (curiosamente contemplada no projecto lei e, misteriosamente, desaparecida da noite para o dia!) nem acho correcto procurar obter uma designação que não descreve os nossos conhecimentos. Até porque acupunctor serve perfeitamente bem.

Muitas pessoas pretendem fazer-se passar por médicos. Mas nunca vi um acupunctor querer fazer-se passar por técnico de…, ou enfermeiro, ou fisioterapeuta. Parece que estamos mais preocupados em ganhar prestígio pelo título do que pela dedicação ao doente e à profissão.

A designação de uma profissão está associada aos conhecimentos específicos dessa profissão. Os médicos têm um conjunto específicos de conhecimentos. Os enfermeiros têm outros. Por isso um enfermeiro não é um médico. E os acupunctores têm outro tipo de conhecimento. Deveriam por isso ser designados de médicos? A única lógica associada à tentativa de conquista do termo médico é o prestígio social, a afirmação pública de um determinado estatuto.

No entanto falei somente da designação de acupunctor. Eu sou licenciado pela Universidade de Nanjing em Medicina Tradicional Chinesa e não em acupunctura. Uso mais comumente o termo acupunctor, porque foi nessa área que especializei os meus conhecimentos. No entanto sou licenciado em Medicina Chinesa.

O termo Medicina Chinesa coloca o problema de ser uma medicina tradicional (e não complementar ou alternativa!). Ou seja, é medicina (muito provavelmente foi por causa disso mesmo que a medicina chinesa desapareceu do projecto de lei). Na China, os profissionais de Medicina Ocidental e os profissionais de Medicina Chinesa são ambos designados como médicos. São “tipos particulares” de médicos com abordagens ao paciente distinctas e com um conjunto de conhecimentos base semelhantes, em particular, na área da anatomia e fisiologia humanas.

O problema não tem só a ver com conhecimentos ou eficácia clínica mas também como tradições culturais. A MTC faz parte do legado histórico-cultural da China, não faz parte do nosso legado cultural. Tradicionalmente, médico é aquele que tira um curso de medicina ocidental. Podemos condenar ou atacar a visão tradicionalista e egocêntrica de se considerar a medicina ocidental como a única forma de medicina válida mas ela faz parte dos nossos valores culturais e acima de tudo é necessária para se saber distinguir as competências técnicas dos diferentes profissionais. Esta divisória é feita, mesmo dentro da medicina. Médicos podem considerar-se colegas porque tem o mesmo curso base. Mas um médico gastroenterologista que se faça passar por cardiologista corre o risco de ficar conhecido como fraude.

Aceitar a medicina chinesa provoca o dilema de ter um curso de medicina no qual o profissional não é médico. Esse problema é derivado de jogos de influência social e de tradições culturais. Por exemplo, poderia definir-se medicina de forma mais ampla e assim aceitar profissionais com formações algo distinctas, impondo a estes mesmos profissionais o dever de não sair da sua área de conhecimentos.

Esse é um problema intrasponível, na medida em que não existe regulamentação da medicina chinesa, não existe certificação da formação desses profissionais e não existe abertura de espírito para tal. A minha opinião pessoal é muito simples: “quero que se lixem os títulos ou o nome da profissão, o que eu quero é a minha autonomia profissional!” É com esta frase que costumo acabar as discussões sobre este tema.

No entanto não posso concordar em ter acupunctores não médicos e ter médicos acupunctores. Isso é um ataque à minha profissão. Se por um lado os acupunctores fazem mal em tentar possuir os títulos de médicos também fazem mal os médicos, procurarem sistematicamente denegrirem a acupunctura e depois criarem uma especialidade médica de acupunctura. Isto não só é um ataque à minha profissão como um acto de cinismo. E nesse sentido deixo aqui uma contra-resposta ao comentário feito. Não no sentido de ofender mas sim no sentido de nos fazer reflectir:

“É altura que as pessoas se assumam, e não enganem os utentes [poderei dizer doentes?!(3)]. Uma vez por todas é a culpa exclusiva dos ditos mestrados se intitularem médicos acupunctores e fazer confusão com os acupunctores, parece que os técnicos em medicina tem vergonha de serem bons técnicos, precisam usar a sombra do Acupunctor. Eu sou acupunctor e não tenho mestrado em medicina e assisto todos os dias a esta situação!
TENHAM CORAGEM EM ASSUMIR QUE NÃO SÃO ACUPUNCTORES PARA OS DOENTES!!”

Termino este artigo com um simples: “e esta hein?”.

NOTAS:
(2) http://acupuntura.blogas-pt.com/indignacao-%e2%80%9cenergetica%e2%80%9d-falsos-profetas-e-bolhas-inflacionarias-acupuntura-acupunctura/#comment-1008
(3) Nota adicionada pelo autor do blogue, Nuno lemos.

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Comments

  1. Ana says:

    Aproveito também para deixar aqui a minha opinião relativamente aos “médicos acupunctores”.
    O meu médico (ocidental) tem também um mestrado em medicina chinesa tirado no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar no Porto (instituto muito prestigiado aqui no porto). Ora bem, eu sou aluna do 3ºano de MTC, e tinha curiosidade em saber os conhecimentos que são passados nestes mestrados e pos-graduações para MÉDICOS, fiz algumas questões inocentes ao meu médico sobre alguns temas da MTC. Cheguei à conclusão que o que aprendem é que tal ponto de acupunctura é bom para isto, para aquilo, etc. Explicar o os fundamentos? Não sabem…
    Se querem de facto exercer MTC tirem um curso numa instituição especializada, e não esses mestrados para médicos… As bases que explicam a filosofia da medicina chinesa vocês não aprendem devidamente, só aprendem o empirico. Ou seja, acabam por estar a exercer uma aérea sem terem os conhecimentos necessários para tal.
    É a minha humilde opinião.

  2. nuno lemos says:

    Boas Ana. Deixo aqui mais 2 links de textos meus. Um é sobre a acupunctura médica mas ainda é a primeira parte. Outro é sobre o discurso de uma médica de família que também faz acupunctura:
    http://acupuntura.blogas-pt.com/acupunctura-medica-mais-uma-forma-de-misturar-politica-com-conhecimento/
    http://acupuntura.blogas-pt.com/os-erros-de-uma-medica-de-familia-uncut/

  3. Ana says:

    Obrigado pelos links Nuno, ainda não tinha lido esses textos. Bastante interessantes..
    Não entendo como é que se usa pontos de acupuntura sem saber diagnóstico da medicina chinesa. Minha gente, o diagnóstico da medicina chinesa é a vertente mais importante para tratar um paciente.
    Os pontos que os médicos aprendem que são bons para determinados sintomas ou patologias pode calhar de funcionar em alguns pacientes e noutros não. Porquê? DIAGNÓSTICO!!! A diferença da medicina ocidental da oriental são a forma de ver o paciente, a ocidental vê o doente como sintomas e sistemas e o tratamento baseia-se nestes, não visualizam o paciente como um todo integrado, tal como a MTC faz.
    Protocolos de pontos nunca devem existir. a mtc vê cada pacientes de forma diferente e individual, ou seja, um paciente com uma patologia pode ter variadíssimos sindromes ou padrões clinicos diferentes, e como é obvio o tratamento será diferente dependendo dos sindromes presentes, logo os PONTOS a utilizar serão diferentes para cada paciente.
    E mais, o médico que exerce acupunctura por não ter conhecimento dos fundamentos pode piorar o estado de um doente.
    Imagine-se que um doente tem um sindrome de vazio, se o MÉDICO usa pontos que por si só dispersem irá agravar ainda mais o estado do paciente.
    Enfim, tem que haver o bom senso!!
    Consciencializem-se do que realmente fazem…

  4. LS says:

    Acho interessante este artigo, mais do que o outro que também comentei. Pessoalmente também não concordo com o título de médico uma vez que pode levar á confusão, mas o termo acupunctor designa apenas alquém que pratica acupunctura. E então quem domina as outras áreas da MTC? Quem faz diagnóstico, dietoterapia, etc… Para mim fazia mais sentido encontrar um termo próprio que diferencie os praticantes de MTC dos de medicina convencional.

  5. Carlos says:

    Porque razão não poderá um acunpuntor ser considerado um médico, não dispõe de meios de diagnóstico, tratamento e autonomia, tal como a medicina convencional, embora através de outros ideais e formas de tratamento, então porque não poderá ser um médico, aliás é um médico no meu ponto de visto, tem tanta autonomia como um médico certo?

  6. nuno lemos says:

    Boas Carlos
    Excelente questão
    O acupunctor tem autonomia assim como um médico. Poderá ser a autonomia a dar o título à profissão? Ou o nome da profissão advêm não da autonomia mas sim dos conhecimentos exigidos?
    Se o nome fosse proveneinet da autonomia profissional então para quê fazer diferenciações entre enfermeiros e fisioterapeutas? Para quê fazer diferenciação entre técnicosa de radiologia e técnicos de optometria?
    Em que é que ficamos?lol
    abraço

  7. Carlos says:

    Pois…
    Mas por exemplo em outros países vou dar um exemplo as pessoas formadas em Osteopatia são médicos Osteopatas.

    Assim como em Portugal existe médico dentista, no brasil odontologista.

    Portanto um Acunpuntor (Mtc) poderá chamado médico acunpunturista , ou médico acunpuntor. Ou então mesmo medico medicina chinesa.

    É só uma opinião…

  8. Carlos says:

    Quando falava em autonomia referia-me inclusive aos conhecimentos, conhecimento, inclusive vocês prescrevem medicação, tratamentos…

  9. nuno lemos says:

    Boas Carlos
    Antes de tudo as minhas desculpas por ter demorado 1 ano a responder-te mas só reparei no comentário hoje. Tento sempre responder a todos os leitores mas por vezes escapa-me 1. E agradeço-te teres respondido tão prontamente.

    Relativamente à osteopatia presumo que te estejas a referir aos EUA. Neste caso não é a questão da autonomia mas sim do conhecimento e formação base que é o que eu tenho chamado a atenção. Neste site:
    http://www.osteopathic.org/index.cfm?PageID=ado_whatis
    podes ler o seguinte:
    “f you’re like most people, you’ve been going to physicians ever since you were born and perhaps were not aware whether that some or all of them were osteopathic physicians, also known as DOs. You may not even be aware that there are two types of complete physicians in the United States—DOs and MDs.

    The fact is that both DOs and MDs are fully qualified physicians licensed to prescribe medication and perform surgery. Is there any difference between these two kinds of physicians? Yes and no.

    DOs and MDs are alike in many ways:

    Students entering both DO and MD medical colleges typically have already completed four-year bachelor’s degrees with an emphasis on scientific courses.
    Both DOs and MDs complete four years of basic medical education.
    After medical school, both DOs and MDs obtain graduate medical education through internships, residencies and fellowships. This training lasts three to eight years and prepares DOs and MDs to practice a specialty.
    Both DOs and MDs can choose to practice in any specialty of medicine—such as pediatrics, family medicine, psychiatry, surgery or ophthalmology.
    DOs and MDs must pass comparable examinations to obtain state licenses.
    DOs and MDs both practice in accredited and licensed health care facilities.
    Together, DOs and MDs enhance the state of health care available in the U.S.
    DOs, however, belong to a separate yet equal branch of American medical care. It is the ways that DOs and MDs are different that can bring an extra dimension to your health care. ”

    Ou seja, tem uma formação médica semelhante.

    A medicina dentária levanta um precedente. Existem diferenças entre médico dentista e médico estomatologista. Podes ver aqui na wikipédia:
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Odontologia

    No entanto a formação base é muito semelhante.

    Relativamente à acupunctura: já existem médicos acupunctores. São médicos que tiraram uma especialidade em acupunctura. Eu tenho o curso de medicina chinesa mas não tenho o curso de medicina: posso então ser médico? O problema está a nível da formação.

    Isto não nega que existam muitas semelhanças entre médico e “acupunctor”: autonomia e prescrição de tratamentos sendo as mais importantes. Mas o conhecimento base é diferente.

    A questão fica: o título da profissão é dado pelo conhecimento ou outro qualquer parametro?

    abraço

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