Investigação científica e prática clínica – PARTE II

Investigação científica e prática clínica – PARTE II

Pela minha prática clínica, não tenho dúvidas que a acupunctura consegue ajudar muitos pacientes com dor nos ombros e nuca. Muitos profissionais ao lerem este texto, certamente, concordarão comigo. Mas como poderei usar isso como prova quando não tenho estudos científicos que suportem as minhas afirmações? Alguns acharão que estes estudos não provam ou desprovam nada e não possuem importância crucial. Eu discordo. É a ausência de estudos correctamente realizados e com conclusões coesas aliados à falta de informação clínica credível que permite afirmações abusivas acerca da acupunctura.

Sou um adepto da aplicação de métodos de investigação clínica que nos permitam quantificar dados sobre os pacientes e as suas melhoras e permitam a análise conjunta desses dados com os dados obtidos de estudos científicos. Só assim teremos condições para um discurso credível frente às preocupações do doente. Só assim conseguiremos extrair os discursos abusivos e falsos sobre a verdadeira eficácia da acupunctura.

A investigação clínica aliada à investigação científica pode ajudar-nos a compreender as diferenças existentes entre resultados das 2 formas de investigação. Por exemplo, posso comparar estudos científicos em pacientes com disfunção eréctil com os dados clínicos dos meus pacientes. É possível dividir os pacientes em faixa etária, comparar o número de tratamentos realizados e a sua frequência, comparar as melhoras dos pacientes com medicação ocidental e sem medicação ocidental (este ponto é extremamente importante; muitos doentes que recorrem às consultas de acupunctura são medicados e não podemos definir com certeza se os benefícios obtidos se devem à acupunctura ou a uma acção sinérgica entre acupunctura e medicação ocidental), comparar as diferenças de pacientes aos quais foi realizada acupunctura/acupunctura e matéria médica/matéria médica isoladamente.

São estas pequenas informações sobre as características dos doentes no estudo (sexo, idade, outras doenças associadas, hábitos de vida como desporto, medicação), comparação de pontos de acupunctura mais usados em clinica e em estudos científicos, etc… que nos permitirão dizer a um paciente, com segurança, o que ele poderá esperar do tratamento.

Tratar um homem de 30 anos, que sofre de disfunção eréctil devido a uma depressão já ultrapassada – sem mais problemas de saúde –, não é a mesma coisa que tratar um homem de 65 anos que sofre de disfunção eréctil, diabetes, hipertensão e problemas cardíacos severos. Como passamos a informação dos estudos científicos para estes 2 pacientes? Que tipo de discurso deveremos ter perante o paciente. Estas questões não são só relevantes para se conhecer a verdade sobre a acupunctura no tratamento de uma determinada queixa mas também para se falar a verdade ao paciente e deixá-lo decidir em boa consciência.

E assim evitarmos episódios tristes, como um que presenciei ao ler o blogue de uma clinica, onde uma paciente com problemas que afectam a sua vida sexual pergunta se a acupunctura a pode ajudar. “Pode, sem dúvida” foi a resposta. A minha resposta e o meu pensamento final a este artigo é que “sem dúvida” não faz parte da acupunctura. Infelizmente o que há mais são dúvidas e incertezas. Incertezas que mais parecem nuvens que não permitem aos doentes receber a luz do Sol e decidir com consciência o caminho que querem seguir.

BIBLIOGRAFIA

CAPODICE, Jillian; et allty; A Pilot Study on acupuncture for lower urinary tract symptoms related to chronic prostatites/chronic pelvic pain; Chinese Medicine Journal 2007, 2:1; doi:10.1186/1749-8546-2-1

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SALTER, Gemma C.; et ally; Acupuncture for chronic neck pain: a pilot for a randomise controlled trial; BMC Musculoskeletal disorders 2006, 7:99; doi: 10.1186/1471-2474-7-99

LINDE, Mattias; et ally; Impacto of acupuncture as add-on therapy to pharmacological treatment of migraine: a pilot studyBannerFans.com
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O autor

nuno lemos

Licenciado em Medicina Chinesa pela Universidade de Nanjing divido o meu tempo entre prática clinica, aulas e formações de acupuntura, escrita e mestrado em radiofarmácia.

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  1. Nuno Sousa says

    Parabéns Nuno, pela tua clareza, objectividade e pela tua busca, que nos beneficia a todos, profissionais da MTC (por minha parte) e público lusófono em geral.

    Responder

  2. nuno lemos says

    Obrigado Nuno

    Responder

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