Investigação científica e prática clinica – PARTE I
Um dos meus passatempos favoritos consiste em procurar estudos científicos sobre acupunctura e analisá-los. Dos diferentes tipos de estudos que procuro há um, em particular, que gostaria de dar um pouco mais de atenção: os estudos que procuram analisar a eficácia da acupunctura no tratamento de determinadas patologias e sua implicação na prática clínica do acupunctor.
É comum ouvir-se acupunctores afirmarem que está provada a eficácia da acupunctura no tratamento de uma série de queixas. Muitos, como eu, procuram estudos que lhes permitam saber com maior exactidão aquilo que está a ser estudado e a validade dos resultados.
Por exemplo, Mattias Linde desenvolveu um estudo para saber até que ponto a acupunctura poderia ser um complemento da medicação ocidental no tratamento da enxaqueca. Ao longo de 4 a 6 semanas foram realizados entre 7 a 10 tratamentos de acupunctura e os resultados comparados com o grupo controlo. Os resultados mostraram que não existia diferença estatisticamente significativa entre os 2 grupos. No entanto estes resultados não são minimamente válidos por várias razões: (1) o número de pacientes era pequeno e (2) o estudo ficou marcado por grandes taxas de desistência nos 2 grupos. Outra critica que se poderia fazer ao estudo estaria relacionada com a sua duração uma vez que não sabemos se ao fim de 16 tratamentos os pacientes poderiam realmente apresentar melhoras.
Outros estudos são mais benéficos à acupunctura. Jillian Capodice, estudou a acupunctura no tratamento de queixas comuns à prostatite. Numa amostra de 10 doentes com tratamentos bisemanais, concluiu que a acupunctura poderá ter um papel importante no tratamento destes pacientes. No entanto, a amostra de 10 doentes é pequena e não permite tirar conclusões que não sejam muito limitadas.
Dong He criou um estudo semelhante, onde pretendia estudar as variáveis sociais e psicológicas em mulheres que sofriam de dor na nuca e ombros, com acupunctura intensiva. Em 3 a 4 semanas foram realizados 10 tratamentos de acupunctura (o que dá uma média aproximada de 2 a 3 tratamentos por semana). Os resultados mostraram que a acupunctura intensiva, juntamente com acupressão realizada entre tratamentos, poderia melhorar a qualidade de vida das mulheres. Apesar deste estudo ainda oferecer dados relativamente a um follow up de 6 meses e 3 anos, o número de pacientes continua muito reduzido, o que não permite obter dados fidedignos.
Já por causa desse problema, Gemma Salter, desenvolveu um estudo piloto controlado e randomisado de forma a estabelecer os parâmetros essenciais para um estudo em larga escala. Este estudo também incidiu sobre a dor na nuca e ombros.
O problema que se coloca ao acupunctor é saber como estes estudos podem ser válidos em clinica. Muitos dos estudos tem poucos doentes o que torna as suas conclusões pouco fidedignas. Por outro lado, em muitos estudos a acupunctura é feita 2 a 3 vezes por semana e, em alguns, é feita diariamente ou mesmo, várias vezes ao dia. Contudo, na clínica, na grande maioria das vezes, faz-se 1 tratamento por semana. Como podemos nós servir-nos de um estudo científico e dar garantias ao doente da eficácia da acupunctura quando, na realidade, as condições de tratamento serão diferentes das condições vigentes no estudo mencionado?


Artigos relacionados:
- Investigação científica e prática clínica – PARTE II
- INVESTIGAÇÃO CLINICA APLICADA À MTC – PARTE I
- Acupunctura e investigação: onde procurar informações
- Problemas de investigação: protocolos personalizados ou fixos?
- Credibilidade cientifica e integração da acupuntura no SNS – parte I
- Credibilidade cientifica e integração da acupuntura no SNS – parte II
- Que doenças podem ser tratadas com a acupunctura?
- Acupunctura para deixar de fumar e outras dependências
- estudo diz que acupuntura verdadeira é igual a placebo – parte II
- Ética, conhecimento e experiência clínica