Indignação “Energética”, falsos profetas e bolhas inflacionárias – (acupuntura, acupunctura)
Faz 3 dias ligou-me uma amiga para saber se eu dava consultas ao domicilio, em Cascais. Tive de lhe dizer, com pena, que no momento, devido ao excesso de trabalho, não consigo dar domicílios e muito menos em Cascais que fica bastante longe dos meus locais habituais de trabalho ou da minha residência.
De acordo com a minha amiga, uma tia dela recorrera a uma acupunctora, em Cascais. Após ter pago 200 euros em 3 consultas a doente teve de ouvir uma história patética sobre como tinha as “energias desreguladas” e como não era possível tratar a sua queixa enquanto não se regulassem as “energias”. Para “regular as energias” seria necessário investir mais umas centenas de euros em consultas fraudulentas sem se tratar o que efectivamente, deveria estar a ser tratado.
Avisei a minha amiga que a pessoa responsável por essas afirmações não percebia nada de acupuntura (desculpem-me a franqueza mas é verdade). Expliquei-lhe que esse discurso de energias nada tinha a ver com medicina chinesa e que eram traduções esotéricas de conceitos chineses e que a visão da medicina chinesa nada tem a ver com os disparates ditos por essa suposta profissional.
Escrevo este texto porque não é a primeira vez que me encontro com este tipo de discurso. E não é a primeira vez que encontro doentes que foram expostos a este tipo de verborreia.
Disse à minha amiga para dar o meu telefone à tia e para a tia me ligar. Isto já há uns dias. Ainda não ligou e a minha experiência com doentes que se sentiram enganados é que não ligam. Pura e simplesmente desistem da acupuntura. E este fenómeno é cada vez mais comum. Do discurso da “acupuntura maravilhosa” há cada vez mais pessoas a falarem na “fraude da acupuntura”.
Um dos últimos casos de que tive conhecimento directo deu-se há uns meses enquanto o blogue ainda se encontrava no domínio antigo. Uma leitora escreveu-me a falar dos seus ataques de pânico e das promessas de cura que alguma clínica famosa lhe tinha feito. Disponibilizei-me para falar com a doente sem compromisso financeiro, trocámos alguns mails, a pedido dei-lhe os meus contactos… e nada. Pura e simplesmente desistiu.
Acho que é altura de algumas pessoas que se dizem acupunctores começarem a por as mãos na consciência. Se não tem conhecimentos não deviam exercer. Ao longo destes anos temos criado uma bolha inflacionária com promessas de curas milagrosas e discursos esotéricos romanceados. Com este tipo de discursos a acupuntura tem sido vendida muito acima do seu verdadeiro preço e a questão é saber quanto mais tempo passará até a bolha rebentar. É evidente que, quando a bolha rebentar, podemos sempre apontar um bode expiatório com algumas teorias da conspiração. De certo que muito nos ajudará.


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Ana says
De facto é muito triste saber que estas coisas acontecem… Há pessoas que realmente não olham a meios para ganhar dinheiro, depois não admira que a medicina chinesa não seja vista de forma séria… Enfim! é o país que temos!
nuno lemos says
Boas Marcos.
Chamar doutor, hoje em dia, já não é só para os médicos. Parece que qualquer profissão usa o título como bem lhe parece. Actualmente é mais usado como uma forma de dizer que se é licenciado. Por exemplo, eu uso esse título quando me apresento no blogue. (Apesar de ser unicamente quando me apresento e nem gostar de usar o título a nível pessoal) No entanto não me considero médico nem desejo que se faça esse tipo de confusão. Agora devemos dar atenção a outra coisa: técnico também não sou. Esse é um termo particularmente desagradável, na medida em que os técnicos de saúde não tem autonomia profissional. Atenção a esse aspecto. Você pode ter um mestrado de 2 ou 3 anos em Acupunctura. Eu tenho uma licenciatura de 5 anos. Pessoalmente prefiro a designação de acupunctor (pelo meno até à altura em que será possível regulamentar a Medicina Chinesa!). Mas não nos esqueçamos de uma coisa: nós temos autonomia profissional e não deve ser um médico que me vem dizer que pontos seleccionar. Creio que não seria neste sentido que escreveu a sua mensagem mas é neste sentido que vai a designação técnico. Muitas pessoas procurm a designação de doutor ou médico já para evidenciar o aspecto da autonomia profissional. No ennto também devo dizer que assumo que não sou médico. E faço isto com os doentes ou com outra pessoa qualquer.
De qualquer forma o seu comentário foi bastante rtinente e incentivou-me a escrever um texto só sobre esta problemática. Espero que o leia e que o comente e assim possamos construir uma discusão proveitosa.
MARCOS says
É altura que as pessoas se assumam, e não engane os utentes . Uma vez por todas é a culpa exclusiva dos ditos Licenciados se intitularem DR e fazer a confusão com os Médicos, parece que os tecnicos em acupunctura tem vergonha de serem bons tecnicos, precisam usar o sombra do DR. Eu sou médico e tenho mestrado em acupunctura e assisto todos os dias esta situação !
TENHAM CORAGEM EM ASSUMIR QUE NÃO SÃO MÉDICOS PARA OS DOENTES!!
LS says
Tenho pena que não desenvolva mais o assunto uma vez que os chineses usam amplamente o termo energia e desiquilibrio energético. Uma vez que muitos termos da acupunctura, como Qi, não são observáveis estamos no domínio do sobrenatural. Dá a ideia que qualquer pessoa que use a palavra energia ou Yin/Yang ou outros termos é um “falso profeta”. Compreendo a indignação do Nuno mas este artigo nos moldes em foi escrito também não ajuda e só piora as coisas. Nada na acupunctura é científico não se esqueça disso.
nuno lemos says
Boas LS, peço desculpa mas vou ter de discordar muitissimo do que acabou de escrever. A história dos chineses usarem o termo eneria e desequilíbrios energéticos não é tão correcta quanto pensa. E o uso deste termo por alguns chineses não o faz mais correcto. Na realidade seria necessário falar ds traduções erradas para se abordar o assunto.
Por algo não ser observável não significa ser sobretural. Engana-se profundamente. Eu dou 2 exemplos simples de algo que não é aobservável e não é sobrenatural: a gravidade e o ar. Este úimo é muito importante para se compreender o qi na medicina chinesa.
Não consigo compreender como é que um artigo que prede chamar a atenção para a manipulação de conceitos base da medicina chinesa só pode piorar as coisas. De qualquer forma deixo aqui a promessa que irei escrever mais um artigo sobre o assunto. Deixo também as minhas desculpas por ter demorado tanto a responder e a publicar o comentário, mas infelizmente fiquei sem acessoà àrea de administração.
abraço
LS says
Nuno o problema é que a gravidade foi medida, embora ainda não esteja totalmente explicada, a acelaração gravítica é conhecida. O ar pode ser analisado na sua composição, oxigénio, CO2, a sua densidade pode ser medida, até o grau de humidade que contem, etc. Tanto quanto sei o Qi no seu sentido mais abrangente nunca foi medido ou explicado, observado ( tirando aquelas auras térmicas ou algo que o valha), nunca foi isolado. Assim como muitos outros fenómenos na MTC.
O que quer dizer em termos concretos e mensuráveis “nutrir o Yin dos Rins”? Este fenómeno foi observado ao microscópio? Na medicina ocidental se lhe falar na coagulação do sangue já estou a falar de algo concreto que pode ser explicado e os intervenientes no processo podem ser isolados e descritos.
Repare não estou a dizer que a MTC não é eficaz a tratar patologias. Apenas que quando critica a superstição, e concordo consigo, se deva explicar o que é a pura superstição e o que são conceitos não cientificos mas essenciais na MTC.
Já agora os chineses no ocidente usam muito o termo energia para designar e explicar o Qi. São eles que fazem essa escolha de tradução, até porque me parece que não há outra mais apropriada. Mas seria pena se as pessoas ficassem com a ideia de que qualquer um que usa o termo energia pratica acupunctura de superstição. Daí ter lhe pedido que explicasse melhor para que as pessoas por fora do assunto saibam distinguir.
nuno lemos says
A tradução do termo energia por Qi é completamente errada, independentemente de ser usada por chineses ou não. O que aconteceu foi que influências vitalistas definiram a tradução como energia e essa tradução inundou o mercado. No entanto nem todos os chineses usam essa tradução. Actualmente muitos sinólogos começam a dedicar-se à tradução dos termos médicos chineses e todos eles chamam a atenção para esse erro. Mas io, fica prometido, deixo para outro texto onde irei expor todos os dados.
Essa tradução leva a vários erros de análise. Como disse a existência der gravidade pode ser medida. Mas a gravidade ou o ar são coisas concretas. A energia, mesmo no sentido vitalista, é algo concreto. O termo chinês Qi não é um termo concreto, mas sim um termo abstrato e funcional. Apesar desta diferença parecer irrisória é ela que causa toda esta celeuma porque a traduzir-se Qi como energia estamos a pegar num termo abstrato e funcional e a transformá-lo num conceito concreto – que pode ser medido, por exemplo!-. Compreendes o erro? Por isso no meu texto sobre energia yin e yang eu abordo o problema do contexto ea má tradução que significa energia negativa ou positiva. Como disse fica prometido mais um texto sobre a tradução do Qi. Para á deixo-te aqui alguns textos que poderás achar úteis.
http://acupuntura.blogas-pt.com/yin-yang-versus-energias-positivas-e-negativas/
http://acupuntura.blogas-pt.com/o-discurso-esoterico-da-medicina-chinesa-quando-a-religiao-se-sobrepoe-a-uma-analise-critica-i/
http://acupuntura.blogas-pt.com/o-discurso-esoterico-da-medicina-chinesa-quando-a-religiao-se-sobrepoe-a-uma-analise-critica-ii/
http://acupuntura.blogas-pt.com/o-que-e-o-qi/
espero que aprecies e comentes os textos. Nas categorias de MTC e ciência e MTC e sociedade podes encontrar outros textos.
abraço
VITOR PINTO says
Os princípios fundamentais que regem o universo, o que o faz comportar-se da forma como se comporta estão de facto estudados e mensurados de forma a criar um MODELO coerente, explicativo e predisente do universo. As forças fundamentais que regem as interacções entre a tomão ACTUALMENTE a forma de: Gravidade, electromagnetismo, força forte e força fraca. Os modelos explicativos da forma de funcionamento do universo tem sofrido historicamente Evoluções com o objectivo de abarcar cada vez mais dentro do seu dominio todos os fenómenos inerentes á realidade ( micro-MECANICA QUANTICA, macro-RELATIVIDADE), tal objectivo parece sempre ter sido ou estar perto de ser alcançado a quando do aparecimento de uma nova teoria que contempla um fenómeno anteriormente não compreendido… parece-me lógico inferir que qualquer PRETENSIOSISMO ou falsa sensação de conhecimento só levará a interrupção desse mesmo mecanismo que nos trouxe alguma capacidade previsão do comportamento das diferentes formas de ENERGIA presentes no universo. È compreensível o desejo de existir de alguma forma intendivel para nós (inteligivel) justificação para este maravilhosos universo, pois o que para nos é desconhecido torna-se de alguma forma ameaçador… Para alguns a Ciência de alguma forma vem fazer exactamente o papel exercido á milénios pela RELIGIÃO e torna-se de facto uma fÉ, pois tal como a religião a ciência tenta justificar a existência do universo. Para isso cada uma cria o seu modelo bem distinto.., Nesse capitulo parece-me que a religião até poderá ser vista de alguma forma como mais honesta, pois não tenta criar a falsa noção de mecanismo lógico e coerente subjacente ao processo de criação do universo…. Na religião é apenas uma questão de fé ou se cré ou não, Apesar de não existir nenhum cientista honesto a afirmar que a ciência tem justificação para a existencia do universo (ISSO NÃO EXISTE), essa ideia é amplamente difundida na população mais incauta e pouco informada nestas questões, preenchendo assim a ciência um lugar de fé, mas de uma forma a meu ver algo .perversa.. De uma forma bastante pragmática a ciência descreve a forma de funcionamento das forças que regem as interações entre as diferentes formas de energia presentes no universo mas de forma alguma JUSTIFICA A SUA Existência. Criando assim modelos capazes de prever o seu comportamento permitindo-nos assim a manipulação do meio que nos rodeia bem como o conforto da sociedade tecnologia actual. Mas temos de ter a real noção que se trata apenas de um modelo e não ” O MODELO ” pois essa mesma manipulação também é possível atravez de outros tipos de representação da realidade… exemplo disso é a representação dualista do universo preconizada pelos tãoistas que tem actualmente concordância em grande parte com a visão cientifica.. bem como a visão UNIFICADORA presente em quase todas as culturas ancestrais partilhada agora pela pela maravilhosa MECANICA QUANTICA e as suas implicações. A MEDICINA CHINESA não passa por isso de um modelo explicativo do universo e da sua forma de trabalhar apoiando-se para isto em observações empíricas e em resultados práticos relatados e documentados por milhares de anos, mas nunca podendo ser testados ou dificilmente justificados pelo MODELO CIENTIFICO,, Pois a visão mecanicista e separatista da ciência ira automaticamente adulterar os reais resultados obtidos em clínica de forma Holistica-.. So o MEDO, ,IGNORANCIA e INTERESSES Económicos justifica privar a sociedade dos beneficios e evolução que a integração de diferentes modelos do ser humano coerentes e com provas dadas traria á nossa cultura.