estudo diz que acupuntura verdadeira é igual a placebo – parte II
Esta meta-análise deveria chamar a atenção dos acupuntores devido em primeiro lugar às caracteristicas próprias do estudo que permitem basear a investigação em estudos considerados certos (ao invês de pegar num estudo mal realizado e dizer que a acupuntura funciona ou não) e, em segundo lugar, devido ao número de pacientes que entraram nos 13 estudos: 3000.
Seja uma meta-análise ou outro tipo de estudo com uma amostra tão grande é, sem dúvida, um estudo com grande poder. Regra geral, a maioria dos estudos são feitos com 10, 20 ou 30 pacientes o que, em termos estatísticos, não significa nada.
Devo chamar a atenção, também, para o facto de se ter feito uma separação de grupos que dá mais poder aos estudos analisados: nomeadamente, à separação entre grupo sem tratamento, grupo com tratamento verdadeiro, grupo com acupuntura placebo.
No entanto, visto este artigo ser baseado numa noticia de jornal e não no estudo propriamente dito, ficaram-me algumas dúvidas que gostaria de partilhar com os leitores.
Em primeiro lugar não creio correcto juntar grupos com diferentes queixas e analisá-los em conjunto. Na verdade não sabemos se pacientes com enxaquecas respondem à acupuntura da mesma forma que pacientes com osteoartrite. Tratar uma mulher de 30 anos com enchaquecas não é a mesma coisa que tratar uma mulher com 85 anos com osteoartrite. Além das queixas é importante analisar a faixa etária dos pacientes. Será que pacientes com 30 anos de idade respondem melhor à acupuntura que pacientes com 80 anos de idade?
Creio crucial saber fazer a separação entre faixas etárias e queixas. Seria relevante analisar a eficácia da acupuntura em pacientes de diferentes faixas etárias com a mesma queixa, por exemplo.
Em segundo lugar surge a eterna dúvida relativamente à acupuntura placebo. Não gosto de falar muito sobre isto porque quando um estudo com acupuntura placebo diz que a acupuntura verdadeira funciona ninguêm contesta esse estudo. Quando acontece o contrário a culpada é a acupuntura placebo.
Contudo, como o próprio Stephen Birch apontou numa palestra dada na ESMTC, existem estudos onde a acupuntura placebo é a mesma que a acupuntura verdadeira. O problema encontra-se nos grandes conhecimentos de acupuntura necessários para saber fazer um bom protocolo ou um protocolo totalmente errado.
Um aspecto importante é que apesar do estudo não ter evidenciado uma diferença muito grande entre acupuntura verdadeira e acupuntura placebo ele mostrou uma diferença de 10 pontos (muito importante, na escala usada) entre estes 2 modelos e a ausência de tratamento.
A diferença entre os tratamentos de acupuntura (verdadeira e falsa) com a ausência de acupuntura leva-nos a reflectir em diferentes cenários.
Em primeiro lugar temos as dificuldades em fazer a acupuntura placebo, problema que já abordámos, ainda que superficialmente (devido à falat dos dados dos estudos e porque é um problema muito extenso para o qual dedicarei um artigo próprio).
Em segundo lugar temos outro problema mencionado por Brian White, no artigo, e já referido várias vezes por outros investigadores. Actualmente começa a existir uma corrente de pensamento que não defende a acupuntura baseada em pontos especificos mas sim na sua prática. Ou seja, a própria inserção da agulha desencadeia os mecanismos neurofisiológicos necessários para se obterem os efeitos. Não é preciso que seja num ponto especifico.
Na própria medicina chinesa existem algumas correntes que defendem algo semelhante. Por exemplo, quem já estagiou em hospitais chineses pode ter encontrado médicos que se preocupavam mais em garantir que a agulha ficasse no percurso do meridiano do que nos pontos propriamente ditos. Neste caso falhar o ponto não é relevante. Falhar o meridiano já tem a sua gravidade.
Outras correntes dizem que mais (ou tão) importante que seleccionar os pontos é palpar o percurso do meridiano e seleccionar as regiões que se encontram em vazio ou em plenitude.
A incapacidade de aceder aos estudos não me permite fazer uma análise dos diferentes estudos e dos protocolos usados pelo que se torna virtualmente impossível saber qual destas hipóteses estará correcta neste caso. Poderão as 2 hipóteses ter o seu quê de razão?


Artigos relacionados:
- estudo diz que acupuntura verdadeira é igual a placebo – parte I
- Acupuntura e amitriptilina no tratamento de dor de neuropatia periférica em pacientes seropositivos
- Reflexões sobre placebo I
- Reflexões sobre placebo 2
- Investigação científica e prática clinica – PARTE I
- Acupuntura verdadeira e falsa: a ausência de bases II
- Dor menstrual (cólicas menstruais) e acupunctura/acupuntura
- Acupuntura verdadeira e falsa: a ausência de bases I
- Disfunção eréctil, “diz que faz bem” e fitoterapia chinesa – parte II
- Investigação científica e prática clínica – PARTE II