O segundo argumento parte da premissa dos fundamentalistas de mercado que este se pode regular a si mesmo. Na realidade é uma ilusão pensar que o mercado se sabe regular a si mesmo. Peca por vários aspectos.
Em primeiro lugar perde noção dos limites da analogia. Passa do fundamentalismo do mercado para o fundamentalismo da saúde particular. Não se pode pensar que o estado não deve intervir nos problemas de saúde da população (essa é uma das razões pelas quais os cidadãos querem um governo). A acupunctura sendo uma profissão de saúde precisa da regulamentação estadual.
Se o leitor desejar, procure aplicar este modelo de pensamento a todas as profissões de saúde. Imagine que o governo não intervêm no tipo de formação dos enfermeiros, dos médicos, dos fisioterapeutas… de ninguém. Imagine que qualquer pessoa pode dizer que é médico, ou cirurgião cárdio-torácico, ou técnico de radiologia. Imagine que qualquer um pode abrir escolas e oferecer a formação que bem desejar e que qualquer profissional de saúde pode oferecer todo o tipo de curas que achar melhor. Acha mesmo que o mercado irá separar o trigo do joio? Fica difícil saber onde se encontram as pepitas de ouro quando enterradas sob toneladas de pirite.
Em segundo lugar parte da premissa ilusória que o mercado é que separa o trigo do joio. Neste caso, mercado, serviria como analogia para os doentes portugueses e ao prestígio associado a um determinado acupunctor. Chamo a esta premissa ilusória porque não diferencia o populismo ou o conhecimento popular do conhecimento técnico. O “mercado” pura e simplesmente não tem forma de garantir a credibilidade dos profissionais e como tal nunca será capaz de separar o trigo do joio. Ser popular ou ser credível são 2 coisas diferentes. Infelizmente parece que nos meios da acupuntura não existe diferenciação entre ser conhecido ou saber o que se faz. Se o Cláudio Ramos ou a Maya decidissem começar a praticar acupuntura rapidamente se tornariam profissionais de topo.
Na realidade, sem regras, o mercado pode facilmente ser manipulado. É totalmente impossível curar-se a dependência tabágica com 2 sessões de acupunctura. Porêm existem pessoas a ganhar dinheiro à conta de doentes incrédulos. Agora até já se encontra publicidade a dizer que a força de vontade nem é necessária para deixar de fumar. Mas talvez os melhores exemplos para demonstrar a falsidade desta afirmação se encontrem fora da acupunctura. Como se explica que alguns iluminados que dobram colheres com a força da mente, que leiam o futuro nas conchas ou nas cartas astrais, consigam fazer fortunas se o “mercado” sabe separar o trigo do joio? Se isto fosse verdade já não existiriam astrólogos, cartomantes e tudo o mais. Curiosamente para o “mercado” todas essas pessoas são idóneas e com muitas provas dadas pelo mundo fora.
O curioso é que este argumento foi usado por uma pessoa que se opõe à regulamentação da acupunctura (tal como está estipulada actualmente) quando o próprio mercado necessita ser regulamentado. Sem regras o mercado descamba em anarquia pura e simples. Foi a ausência de um mercado regulamentado, na Rússia, que permitiu a muitos amigos de Ieltsin enriquecerem enormemente. Foi a necessidade de mercados regulamentados (para própria defesa das profissões) que originou as diversas Ordens e Associações das diferentes profissões de saúde. A Ordem dos Médicos e a Ordem dos Enfermeiros são 2 exemplos.
O mercado livre indica que profissionais com formação adequada possuem o direito a exercer – não dá liberdade para qualquer um fazer o que bem desejar -. A concorrência leal indica que todos os profissionais que não violem a sua deontologia profissional – promessas de curas duvidosas e sem provas, por exemplo – possam exercer livremente.
Para o “mercado” da acupunctura se desenvolver, esta precisa ser regulamentada. E necessita da intervenção estatal. E não é o “mercado” da acupunctura que vai separar o trigo do joio, mas sim o Estado Português. É com a definição de regras explicitas para a digna formação dos profissionais que seremos capazes de separar o trigo do joio. É com a definição de regras deontológicas precisas que seremos capazes de garantir um correcto funcionamento ao “mercado” da acupunctura em Portugal. E depois sim poderemos servir um “mercado” aberto, de forma credível, digna e profissional mantendo a concorrência leal (pelo menos a um nível mais aceitável àquele que hoje vinga na nossa sociedade).
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