Deparei-me faz pouco tempo com uma discussão na comunidade de medicina chinesa onde eram empregues algumas analogias de foro económico que achei interessante desenvolver. Parte desta discussão está associada a artigos que já escrevi sobre os interesses pessoais na regulamentação da acupunctura e sobre o impacto que isso teria nos diferentes cursos, artigos esses aos quais aconselho uma leitura.
As analogias económicas apesar de interligadas podem dividir-se em partes. Numa primeira é afirmado que:
“talvez porque a base dos teus argumentos não a queiras expôr: Que os outros cursos vos fazem sombra e que aquilo que não conseguem pela competição leal num mercado livre queiram conseguir pela competição desleal utilizando a legislação não para beneficiar os pacientes ou alunos mas para beneficiar os vossos interesses pessoais.(1)”
Neste argumento encontramos a defesa da concorrência leal num mercado livre. Supostamente a legislação serviria para destruir esse mercado livre e acabar com a concorrência leal servindo os interesses pessoais de alguns e não salvaguardando os interesses dos pacientes.
No segundo argumento é usada uma analogia curiosa. É afirmado:
“Sabe no que toca à economia eu sou o mais liberal possível, quanto menos intervenção estatal melhor. O mercado sabe separar o trigo do joio.(2)”
Esta analogia além de infeliz é errada. Digo infeliz porque foi feita num momento em que os governos se vêem a braços com uma crise e são obrigados a intervir no mercado (quem pensaria ver George Bush a nacionalizar empresas norte-americanas?). Errada porque parte do princípio errado de que o mercado sabe gerir-se a si próprio. Na verdade esta é a filosofia dos fundamentalistas de mercado.
Contudo, estes 2 argumentos têm o seu quê de interessante: a forma como se procura usar uma analogia para expor um ponto de vista e adaptá-lo a uma realidade diferente. Também considero interessante a forma como ao usar esta analogia se tenta manipular e subverter todo o problema da regulamentação.
O primeiro argumento está correcto. Devemos defender uma competição leal num mercado aberto. No entanto isto nada tem a ver com o mundo da acupunctura hoje em dia. Passo a explicar porquê.
Em primeiro lugar não existe competição leal. Existem pessoas que se inscrevem em cursos com uma formação geral perto das 5000 horas com bastantes horas de aulas práticas e um estágio clínico satisfatório, outras inscrevem-se em cursos onde o grosso das aulas são dadas num fim de semana por mês e onde as aulas práticas e os estágios clínicos são pobres, outros inscrevem-se num curso (seja fim de semana ou não) desistem no primeiro ou segundo ano (sem os terem terminado) e começam a exercer, outros assistem a 1 ou 2 seminários de aurículopunctura ou outra coisa qualquer e começam a exercer. Isto não é competição leal. É impossível existir concorrência leal enquanto não existir um padrão de formação idêntico a todos os profissionais.
Porêm o argumento procurava focar-se na prática clínica e não nas aulas. Mas também aí não existe concorrência leal. Todos nós já vimos publicidade da acupunctura para emagrecer com 100% de sucesso, publicidade de acupunctura para deixar de fumar em 2 sessões, etc… Como pode existir concorrência leal quando qualquer um pode fazer as afirmações que bem desejar e prometer todo o tipo de curas? Nunca existirá concorrência leal enquanto não existir uma classe profissional credível capaz de formar um código deontológico e impô-lo aos seus membros.
Em segundo lugar existe a defesa do mercado aberto. Todos nós defendemos que o mercado deve ser aberto a todos os praticantes. Mas ter um mercado aberto não significa que não existam regras para o seu funcionamento. O que está em causa não é se o mercado é aberto mas sim se é anárquico. A ausência de regras leva a que o mercado seja aberto mas anárquico.
A falta de formação de muitos praticantes, a falta de ética na publicidade que se faz, a falta de mecanismos reguladores que permitam estabelecer um bom funcionamento do mercado faz com que ele seja caracterizado, principalmente, como um mercado anárquico com concorrência desleal. Infelizmente esta é a melhor caracterização do “mercado” da acupunctura nos dias de hoje. Não há mecanismos reguladores da formação dos seus praticantes nem há mecanismos reguladores da prática dos profissionais.
NOTAS
(1) http://www.medicinachinesa.com/viewtopic.php?f=7&t=367
(2) http://www.medicinachinesa.com/viewtopic.php?f=7&t=367