A Medicina Chinesa é essencialmente sintomática. O seu pensamento está feito de forma a tratar sintomas. Se já dei um exemplo de acupunctura permitam-me agora citar um exemplo retirado da obra “Gynecology of Traditional Chinesa Medicine”. Neste livro da especialidade os autores, no tratamento da metrorragia e metrostaxis, devido a calor no sangue, referem os seguintes sintomas:
“Occurrence of menstrual blood not at the due time, or profuse and fulminant blood flow, dripping bleeding, bright-red or deep red color and thin texture menses, accompanied by disphoria, dry mouth, or fever, yellowish urine, constipation, red tongue with yellow fur, slippery pulse or thin and rapid pulse”[i]
Nestes sintomas é possível observar 3 categorias distinctas de sintomas: (1)sintoma da queixa principal(Occurrence of menstrual blood not at the due time), (2) características próprias desses sintomas atendendo à forma como o padrão clínico se manifesta (bright-red or deep red color and thin texture menses) e (3) sintomas acompanhantes ou agravantes da queixa principal (accompanied by disphoria, dry mouth, or fever, yellowish urine, constipation) e sinais clínicos (red tongue with yellow fur, slippery pulse or thin and rapid pulse).
A Medicina Chinesa é toda ela um gigantesco jogo de sintomas. Atendendo ao que disse acerca da cultura chinesa enquanto cultura normativa temos que todo o diagnóstico e terapêutica estão feitas de forma a permitir intervenções seguras baseadas nos sintomas do paciente. Neste caso os autores aconselham a seguinte fórmula:
Radix Scutellariae (Huangqin)– 10 g
Fructus Gardeniae(Shanzi) – 6 g
Radix Rehmanniae (Shengdihuang)– 10 g
Cortex Lycii (Digupi) – 12 g
Radix Sanguisorbae (Diyu) – 15 g
Cortex Mountain Radicis (Mudanpi) – 10 g
Plastrum Testudinis (Guiban) – 10 g
Colla Corii Asini (Ejiao) – 10 g
Trachycarpi Carbonisatus (Chenzongtan) – 10 g
Nodus Nelumbinis Rhizomatis Carbonisatus (Oujietan) – 10 g
Radix Glycyrrhizae (Gancao) – 5 g[ii]
O mais curioso é que a seguir a estabelecerem a fórmula aconselham alterações à mesma de acordo com a variação sintomática que possa existir. Desta forma os autores aconselham:
No tratamento da sede e febre adicionar:
10 gramas de Rhizoma Anemarrhenae (Zhimu)
10 g de Radix Ophiopogonis (Maimendong)
10g Radix Scrophulariae (Xuanshen)
No tratamento de hemorragia com coágulos adicionar:
10 g de Pollen Typhae (Puhuang)
6 g de Faeces Teogopterorum (Wulingzhi)
E assim sucessivamente para diferentes sintomas. O que define a prescrição ou alteração de fórmulas, a construção de protocolos de acupunctura ou a dietética são essencialmente os sintomas do paciente.
Na ausência de sintomas não há doenças nem padrões clínicos de MTC. Gostaria de ver alguém diagnosticar um Vazio de Yin do Rim ou um padrão de Humidade-Calor no Pulmão na completa ausência de sintomas. A Medicina Chinesa só trata basicamente sintomas e não são os discursos embelezados dos seus aderentes que irão alterar esta realidade. Não é por usarmos termos como “holismo” ou “energias” ou “desequilíbrios energéticos” que vamos negar este simples facto da MTC: o sintoma é a razão de ser da Medicina Chinesa, é o fundamento da sua acção, é a sua essência clínica.
[i] Gynecology of Traditional Chinese Medicine, pág. 74
[ii] Idem, idem, pág. 75
Artigos relacionados:
- É sintomático… parte III
- Prescrições que aliviam síndromes externos – parte VI
- Prescrições para aliviar síndromes externos – parte V
- Prescrições que aliviam síndromes externos – parte II
- Ba Zhen Tang (Decocção das Oito Pérolas) da gama de Bob Flaws
- Tài Zĭ Shēn – Radix Pseudostellariae Heterophyllae – fitoterapia chinesa
- Prescrições que aliviam síndromes externos – parte III
- gui zhi jia long gu mu li tang – fitoterapia chinesa
- Drogas tónicas
- Prescrição da Matéria Médica Chinesa – Parte I

O diagnóstico é metrorragia ou é calor no sangue? Vai tratar a metrorragia ou o calor no sangue? Vai tratar a metrorragia ou a razão pela qual a doente tem a metrorragia?
Se tratar a metrorragia independentemente dos restantes sintomas e sinais clínicos, tal como a medicina moderna, vai resolver o problema de vez? E se tratar o calor no sangue independentemente de haver ou não metrorragia?
E se a medicina moderna tratar a metrorragia com sucesso, a doente vai melhorar igualmente de “disphoria, dry mouth, or fever, yellowish urine, constipation, red tongue with yellow fur, slippery pulse or thin and rapid pulse”?
Bem, aqui vou limitar-me a aguardar a resposta ao José.
O diagnóstico é metrorragia por calor no sangue. Neste caso não é um puro diagnóstico de MTC, uma vez que metrorragia não é um diagnóstico de MTC. Existe, no entanto, uma doença em MTC que engloba a metrorragia conhecida como síndrome hemorrágico.
Tradicionalmente o diagnóstico seria síndrome hemorrágico por calor no sangue.
Regra geral trata-se a manifestação (metrorragia) e a causa (padrão clinico) que, na lógica da MTC é a razão pela qual existe a metrorragia. O que significa que se cria uma fórmula composta por plantas que vão tratar os sintomas que compõem o padrão clínico – com queixa principal englobada. Obviamente, os princípios de tratamento em MTC definem outras possibilidades como tratar unicamente a causa (sintomas que compõem o padrão clinico) ou tratar unicamente a manifestação (quando esta se manifesta com grande violência). Por exemplo se a metrorragia fosse muito intensa era provável que o tratamento inicial incidisse principalmente sobre a manifestação (hemorragia) e posteriormente se desse mais atenção ao tratamento da causa (padrão clínico).
Depende. Realmente a medicina ocidental, muitas vezes, consegue tratar a queixa principal, independentemente dos outros sintomas. Podem existir casos onde o problema fica resolvido de vez e outros que não. O mesmo se passa com o calor no sangue. Podem colocar-se outras questões associadas: é possível tratar de vez uma queixa enquanto o seu padrão clínico se continua a manifestar? É possível tratar os sintomas de um padrão clínico mas a queixa principal continuar a manifestar-se?
Relativamente à ultima pergunta: a variação e as hipóteses no campo da medicina são tantas que fica dificil dar uma resposta directa e objectiva.
Já vi medicamentos ocidentais a tratarem a manifestação e, igualmente, os sintomas que compunham o padrão clinico. Já vi medicamentos ocidentais a aliviarem uma queixa mas a alterarem os padrões clínicos, ou a criarem novos padrões clínicos.
Uma vez que este artigo versava, essencialmente, sobre a importância do sintoma na MTC fico sem compreender a lógica de muitas destas questões, apesar de achar que sob o ponto de vista clínico são interessantes devido à diversas respostas possíveis.
Já agora permitam-me colocar outras questões:
Será possível tratar somente o sintoma (queixa principal) e assim fazer desaparecer o padrão clínico?
Atendendo a um paciente com os seguintes sintomas cefaleia frontal e congestão nasal devido a um padrão de humidade. Dirigindo o tratamento para a manifestação (queixa principal, neste caso cefaleia e congestão nasal) e para o padrão clínico (sensação de peso, etc…) e supondo que todas as pessoas reajem bem à acupunctura é possível curar todos estes pacientes?
divirtam-se a responder lololoooloololololololol
“Regra geral trata-se a manifestação (metrorragia) e a causa (padrão clinico) que, na lógica da MTC é a razão pela qual existe a metrorragia. O que significa que se cria uma fórmula composta por plantas que vão tratar os sintomas que compõem o padrão clínico – com queixa principal englobada. Obviamente, os princípios de tratamento em MTC definem outras possibilidades como tratar unicamente a causa (sintomas que compõem o padrão clinico) ou tratar unicamente a manifestação (quando esta se manifesta com grande violência).”
Isto nem parece escrito pela mesma pessoa que escreveu os textos em que defende que a MTC é tão sintomática como a MO e vice-versa.
Já agora poderias indicar-me qual o texto onde eu defendo que a MTC é tão sintomática quanto a MO e vice-versa? E também a parte desse texto que contradiga o que escrevi acima.
http://acupuntura.blogas-pt.com/e-sintomatico%e2%80%a6-parte-i/
http://acupuntura.blogas-pt.com/e-sintomatico-parte-ii/
http://acupuntura.blogas-pt.com/e-sintomatico-parte-iii/
Nestes. Todos os textos defendem isso e contradizem o que disse acima. Se a MTC é essencialmente sintomática, então “os princípios de tratamento em MTC definem outras possibilidades como tratar unicamente a causa (…) ou tratar unicamente a manifestação (…).” é algo que contradiz isso mesmo.
E esta é a minha opinião sobre o assunto e sobre o que escreveu, o que tinha a dizer já disse pelo que não estou minimamente interessado numa troca infindável de comentários de “não não” e “sim sim”.
Em nenhum destes textos está escrito que a MTC é tão sintomática quanto a MO e vice-versa. Na realidade até se defende que a MTC é mais sintomática que a MO, uma vez que o seu diagnóstico está muito mais dependente dos sintomas do paciente do que o diagnóstico na MO. Essa é a conclusão lógica a tirar dos 3 artigos e que, obviamente, mostram a falsidade da afirmação “só tratam sintomas” referindo-se à MO e indicando a nossa capacidade de actuar em algo mais energético… que geralmente se confunde com causas de doenças.
E não compreendo como é que o que eu escrevi na resposta pode ser oposto ao que escrevi nos textos. Os princípios de tratamento na MTC não inviabilizam o facto dela ser essencialmente sintomática. Na realidade, os princípios de tratamento são princípios que nos permitem ter objectividade para tratar os sintomas do paciente.
Excepto claro se tratar a causa. Aí já não é (tratamento) sintomática.
Pois.
E pelo menos compreende-se o que significa causa em MTC? Conhecemos os deiferentes níveis onde manifestação e causa se podem aplicar? Com esta resposta é óbvio que não.
De qualquer forma aqui está uma ideia para mais um texto. Falar um pouco sobre o que realmente significa causa e manifestação em MTC.