Surge agora uma pergunta. O que é o Qi? Qual a importância deste conceito na medicina chinesa, em termos de prática clínica?
Perguntar o que é o Qi é uma pergunta que pode facilmente enganar. Isto porque a resposta mais acertada seria, provavelmente, que dependeria do contexto. Na realidade termos como Yin, Qi e Yang não tem tradução noutras línguas porque podem significar várias coisas em contextos diferentes. Por exemplo o yang pode significar fogo e o Yin água. Mas dentro da água o Yang pode ser considerado como vapor de água e o Yin como gelo. Além disso o Yang pode representar outras coisas que nada tem a ver com a água ou o fogo como dia, verão, homem, imaterial, etc… Com o Qi acontece algo semelhante. Podemos considerá-lo como imaterial ou esotérico, ou usá-lo, mesmo, como um substituto de Deus. Mas nunca num contexto clínico como é o contexto em que a medicina chinesa se insere. Permitam-me apresentar 2 exemplos clínicos:
Dentro da comunidade de medicina chinesa, no Ocidente, é costume definir-se o Qi “como uma energia” que circula por entre determinados canais conhecidos como meridianos. Cada meridiano é constituído por pontos de acupunctura. Estes pontos têm uma localização anatómica precisa e possuem funções clínicas especificas assim como indicações clínicas precisas.
Apesar do Qi ser um conceito abstrato que tenta definir uma determinada realidade clinica é visto por muitos terapeutas como possuidor de uma existência real e esotérica . Este último grupo de pessoas, regra geral muito dedicadas ao Qi Gong, aborda a medicina chinesa sob uma perspectiva mais esotérica e menos clínica (neste momento não vou entrar em discussões sobre o que se pode considerar real, seja numa perspectiva objectiva e cientifica ou numa perspectiva cultural).
O seu discurso apesar de se parecer com um discurso clínico (dentro da medicina chinesa) não é mais do que um discurso religioso onde Deus é trocado por Qi e uma data de novos conceitos esotéricos vêem à luz do dia. Normalmente, este grupo de pessoas, não aprecia uma abordagem científica da medicina chinesa e não gosta de colocar em causa as suas crenças (é isso que são) sobre a realidade energética do paciente. À primeira vista pode ser difícil distinguir uns e outros uma vez que a própria linguagem da medicina chinesa leva a enganos.
Recentemente houve uma discussão mais azeda no blog devido ao problema da investigação científica na MTC. Este artigo vai abordar parte desses argumentos, mais especificamente, o problema que aborda os protocolos fixos ou personalizados.
Muitas das críticas que têm sido feitas aos estudos científicos sobre acupunctura, é que estes se baseiam, principalmente em protocolos fixos e a acupunctura para ter sucesso tem de se feita com protocolos personalizados. Existem alguns pontos de discussão nestes casos:
No braço existem 3 meridianos de natureza Yin. Todos se encontram no bordo anterior do membro superior. O meridiano do Pulmão (mais externo) o meridiano do Mestre do Coração (no meio) e o meridiano do Coração (mais interno).
Neste artigo vamos observar quais os principais nervos destes meridianos e associá-los aos segmentos dos seus pontos de assentimento para concluirmos com a correespondência entre os órgãos e os segmentos que os inervam.
Para facilitar a nossa apresentação daremos atenção aos 3 meridianos em separado iniciando a nossa análise com o Pulmão, depois o Mestre do Coração e, finalmente, o Coração.
Recentemente vi num fórum sobre medicina chinesa uma crítica, de uma aluna nova, ao extenso currículum científico do curso. As críticas assentam na existência de disciplinas como fisiologia, anatomia ou estatística. Alguma pessoas, felizmente começam a tornar-se uma minoria, não percebem qual a utilidade da anatomia ou da fisiologia uma vez que a medicina chinesa nunca desenvolveu essas disciplinas. Também não conseguem perceber qual a utilidade da estatística num curso de medicina energética onde a ciência é considerada quase como uma superficialidade do Ocidente.
Quando falamos de formação científica devemos dar atenção a 2 aspectos diferentes: (1) aprendizagem de conceitos científicos e de factos científicos acerca do funcionamento do corpo humano e (2) aprendizagem do método científico e das suas capacidades de percepção da realidade objectiva que nos rodeia. Alguns pós-modernos meio perdidos parecem contentar-se mais com conceitos vagos que conduzam a uma espécie de medicina religiosa altamente subjectiva do que a uma arte terapêutica objectiva e devidamente comprovada. Qual, então, a importância da formação científica? Há vários pontos que podemos analisar.
Em primeiro lugar, a medicina chinesa já não existe unicamente na China. Entrou em contacto com o Ocidente e, em particular, com a ciência Ocidental. O discurso que estas 2 não se devem misturar pois a medicina chinesa é energética e a ciência Ocidental é reducionista é completamente falso. O método científico pode ser usado no estudo da medicina chinesa. Podem até ser necessárias condições especiais para a formulação de alguns estudos. Mas o método científico continua a ser válido.
Nas conclusões daremos importância aos sintomas funcionais dos órgãos tal como são conhecidos na Medicina ocidental. Como tal não consideraremos a epilepsia como um problema associado ao Coração.
1 – O ponto de assentimento do Pulmão encontra-se num segmento que inerva tanto o Pulmão como o Coração. A sua inervação coincide com problemas pulmonares e dor na zona superior das costas mas não coincide com febre, epilepsia, etc… e também é de notar que não existem quase indicações relativamente a problemas cardíacos.
2 – O ponto de assentimento do Mestre do Coração encontra-se num segmento que inerva o Pulmão e Coração. Coincidem as suas principais indicações clínicas a nível de problemas pulmonares e cardíacos com a segmentação.
3 – O ponto de assentimento do Coração encontra-se num segmento que inerva pulmão, Coração, estômago, Duodeno, Pâncreas, Fígado e Vesícula Biliar. Compreendem-se, então, algumas das suas principais indicações clínicas como problemas cardíacos, pulmonares, vómitos e icterícia. Não se compreendem as indicações clínicas de epilepsia, emissões seminais, insónia, problemas na língua, etc…
Na medida em que a Medicina Chinesa começou a tomar contacto com a Medicina Ocidental e a Ciência Ocidental foi adoptando novas formas de intervenção. A electropunctura é um exemplo sobejamente conhecido em que se começou a aplicar a passagem de corrente eléctrica através de pontos de acupunctura.
Neste pequeno texto pretendo falar de outras técnicas menos conhecidas. Nomeadamente o uso de técnicas de cirurgia na acupunctura. Não falo do uso da acupunctura em cirurgias mas sim o inverso. Evidentemente que a MTC começou a usar estas técnicas antes do seu encontro com a medicina ocidental. No entanto, este encontro, permitiu desenvolver novas técnicas. Também deixo aqui o aviso de que este texto pretende só informar acerca destas técnicas e não fará nenhuma menção mais pormenorizada das mesmas, nem das técnicas assépticas a ser usadas. É um texto a título informativo somente.
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Regra geral, as mulheres grávidas sofrem enjoos no início da gravidez. A medicina ocidental e a medicina chinesa desenvolveram tratamentos de forma a aliviar estes sintomas e a melhorar a qualidade de vida da grávida. Mesmo no céptico Ocidente a acupunctura é usada, mesmo pela acupunctura médica, para alívio desses sintomas em grávidas. Há uns meses li um livro que me obrigou a olhar para esses sintomas de forma diferentes.
Qualquer pessoa com formação em medicina ocidental ou chinesa ou ayurvédica olha para os vómitos como um sintoma. Uma forma do corpo do paciente comunicar que algo está mal. Que precisa de tratamento. Nós aplicamos esse pensamento em todas as situações, mesmo durante a gravidez. No entanto a gravidez não é uma doença. Poderá um sintoma, como o enjoo, durante a gravidez ser considerado um sintoma de doença?
Uma ideia interessante nasceu quando dava uma aula de acupunctura clínica II. Nessa aula ensinava os meus alunos a seleccionar pontos de acordo com os grupos musculares no tratamento da paralisia facial.
Na realidade é muito simples. Basta pedir ao paciente para fazer determinados movimentos (como encher a boca de ar) e de acordo com a sua incapacidade em faze-los seleccionar pontos locais de acordo com os grupos musculares responsáveis pelo seu movimento.
Os músculos da face são muito importantes pois é através deles que conseguimos comunicar muitas das nossas emoções. Quando nos sentimos alegres o nosso cérebro envia mensagens específicas para alguns músculos contraírem e outros relaxarem. Quando um determinado músculo contrai, o seu antagonista (músculo que tem acção contrária) é obrigado a relaxar.
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A nova abordagem que eu proponho e pratico na clínica não se baseia em esquecer os meridianos e pensar unicamente em termos de músculos ou sistema nervoso. Pelo contrário. Ela baseia-se em associar ao máximo estas teorias. Consoante o caso clínico a tratar pode dar-se predominância mais a uma teoria do que a outra. Permitam-me que exemplifique.
A paciente Shen Men de 30 anos de idade surge na clínica com dor de cabeça. Passando a parte do interrogatório e palpação à frente consigo concluir que: (1) a dor de cabeça localiza-se no lado da cabeça e irradia até ao lado externo do olho (aproximadamente nível Shao Yang em medicina chinesa) e (2) o padrão clínico é uma estase de Qi do fígado. De acordo com estes dados posso definir um protocolo de acupunctura (peço ao leitor que não sabe medicina chinesa que confie em mim, mesmo não percebendo a razão de ser destes pontos.) Vamos supor que eu decido usar o protocolo: 34VB, 41VB, 8VB, 5TA, 20VB, TaiYang. Tenho 3 pontos locais TaiYang, 20VB e 8VB que são importantes. Também uso 2 pontos de abertura de meridianos maravilhosos importantes no tratamento deste tipo de queixas (5TA e 41VB) e finalmente recorro ao ponto 34VB que move o Qi do Fígado. Os pontos de abertura, mencionados atrás, também movem o Qi do Fígado. Mas a este tratamento de acupunctura eu posso juntar pontos gatilho activos.
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