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Os meus leitores que me desculpem o desabafo, mas não consigo ficar sem escrever e sem exprimir a minha revolta face à hipocrisia médica. Espreitava hoje o meu blogue, e a publicidade que aparece no adsense quando dou conta de uma clínica em Alvalade que também oferecia tratamentos de acupunctura. Procurei informações sobre a acupuntura e dei de caras com um texto deplorável, bastante apreciado por médicos, e que denuncia mais a sua veia politica que humana.
Após a lenga lenga leiga e inculta do costume sobre as energias yin e yang e os desequilíbrios energéticos, surge uma parte que afirma:
“Ainda erradamente apelidada de medicina alternativa por pseudo profissionais, a Acupunctura não merece ser qualificada como tal, pelo aspecto depreciativo com que esse termo a rotula. Há sim, e apenas, MEDICINA.”(1)
Em primeiro lugar os únicos pseudo-profissionais que rotulam a acupunctura de Medicina Alternativa são os médicos. No ocidente é chamada de medicina alternativa ou complementar quando, na realidade é uma medicina tradicional usada complementarmente à Medicina Ocidental. E nada tem a ver com a Medicina Ocidental. Se é um termo depreciativo, então deixem de o usar. E já agora deixem de ofender profissionais com maior formação com termos como técnicos ou pseudo-profissionais.
O problema é que temos médicos mais preocupados em estudar politica e marketing do que medicina e ética. A classe médica pode invadir as áreas que bem entender mas as suas próprias áreas são intocáveis. Literalmente podem fazer tudo o que desejarem, protegidos por uma Ordem mais poderosa que o Ministério da Saúde, com a agravante que o Ministério da Saúde defende os interesses dos doentes portugueses e a Ordem dos Médicos só defende o interesse dos médicos. E não sejamos ingénuos a ponto de pensar que são a mesma coisa.
Um médico pode falar do qi como energia que não tem problema. Um acupunctor que fala o mesmo é ridicularizado pelo seu discurso esotérico e pouco científico. Um médico pode aplicar tratamentos de acupunctura para problemas de saúde, na qual não está provada cientificamente a sua utilidade. O acupunctor é visto como aldrabão (ou pseudo-profissional se preferirem um termo mais polido!) mesmo que aplique a acupunctura em sintomas para os quais esta se encontra provada como eficaz.
E toda esta hipocrisia sob a bandeira do profissionalismo e defesa dos direitos do doente. Vergonha na cara. Os médicos deviam ter vergonha na cara e acabar com estes discursos difamatórios. O que os médicos não dizem é que um pseudo-profissional, como o autor deste blogue, tem uma formação de quase 5000 horas em Medicina Chinesa enquanto que a formação médica se resume a uns seminários de uns poucos meses. Mas a hipocrisia não acaba aqui.
Uma vez que a Medicina Ocidental não inventou a acupunctura como é que os médicos aprendem acupunctura? Exactamente. Por livros escritos por pseudo-profissionais. E também fazem estágios hospitalares na China onde são tutelados por… Licenciados, Mestrados e Doutorados em Medicina Chinesa. Que é outra forma de dizer… pseudo-profissionais.
Mas depois de todo o discurso contra a acupunctura é sempre bom dar uma vista de olhos pelo recente fórum de acupunctura médica, que os médicos portugueses decidiram criar.
Um dos poucos tópicos ainda criados intitula-se “ Livros do Acupunctura na Livraria dos HUC”. Neste tópico pode ler-se o seguinte:
“Prática de Acupuntura: Hecker, Hans-Ulrich
Esta obra oferece a apresentação mais clara e acessível de todas as localizações dos pontos de acupuntura, bem como de seus conceitos fundamentais, sendo ideal para aqueles que praticam a Medicina Tradicional Chinesa (MTC)” (2)
Além deste livro, também se podem encontrar outros escritos por Maciocia. Aqui deixo uma pequena lista: Diagnóstico pela língua na Medicina Chinesa, Prática da Medicina Chinesa, Fundamentos da Medicina Chinesa, etc… O que será que fazem os médicos com obras de Medicina Chinesa? Ou será que por terem sido escritas por uma pessoa licenciada em Medicina Ocidental e em Medicina Chinesa são mais credíveis? Ou vamos esquecer o facto de que todo esse conhecimento é pseudo-profissional? Eu posso saber mais diagnóstico ou acupunctura que qualquer médico (o que não é difícil!) mas como não sou médico, sou uma fraude. Quod Erat Demonstrandum.
Não conta o conhecimento. A única coisa relevante é a classe. Qualquer discurso hipócrita, fundamentado no medo, ou nos direitos dos pacientes, é bem melhor que um discurso sério, coerente e responsável. Mas como os médicos são omnipotentes e, obviamente, supra-inteligentes não precisam de conhecimento. Lêem livros e chamam pseudo-profissionais aos outros.
Compreendo que é bastante útil aos médicos afastarem do caminho pessoas como eu ou outros colegas meus. Assim podem ficar com o monopólio do mercado e garantir que nunca vão existir médicos suficientes para suprir as necessidades de saúde da população ou colocar em risco o aumento do preço das consultas, altamente subsidiadas por seguros e pelo Estado Português.
NOTAS
(1) http://www.alvamed.com.pt/acupunctura.html
(2) http://spma.forumotion.com/noticias-f4/livros-do-acupunctura-na-livraria-dos-huc-t1.htm
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