Acupuntura vegetal, esoterismo e disparates – parte I
Graças ao excelente trabalho dos administradores do fórumMTC, a quem dou os parabéns, a comunidade de acupunctores portugueses não só ganhou um espaço extra para comunicar como ainda foi premiada com o acesso a diferentes estudos científicos e às mais variadas noticias mundiais sobre acupunctura.
Este artigo é uma crítica a um desses artigos (e não deve ser vista como critica ao fórumMTC). Um artigo retirado do site Paisagismo Brasil que por sua vez terá sido publicado na revista Sitios&Jardins. Este artigo fala sobre acupunctura vegetal. Como irei demonstrar aquilo a que se chama acupuntura vegetal não é mais do que uma mutilação da MTC baseada em conceitos esotéricos e sem qualquer tipo de base minimamente fundamentada. Passemos então ao artigo propriamente dito:
Logo de inicio é afirmado:
“A acupuntura é uma ciência e, como toda ciência, uma coisa complexa. Em todo o caso, poderíamos dizer que seu princípio básico é a busca do equilíbrio entre os polos positivo e negativo da energia que faz funcionar os seres vivos(1)“
Em artigos anteriores critiquei a tradução do termo Qi como energia. É uma tradução errada que mutila completamente o seu significado na medicina chinesa. Esta tradução derivou de correntes esotéricas New Age, com influências vitalistas, e que acabou por nos oferecer uma visão errada do que a Medicina Chinesa realmente é ou da forma como pensa.
O princípio básico da MTC (e não da acupuntura) não é a busca de equilíbrio entre pólos positivos e negativos da energia. Ela fala do equilíbrio do microcosmos (homem) com o macrocosmos (ambiente circundante) que é totalmente diferente. Fala da adpatação do ser humano às estações do ano, às características ambientais que o rodeiam, à sociedade, etc… Esta história de embalar das energias negativas e positivas é uma invenção ocidental proveniente da análise da MTC numa perspectiva esotérica.
O autor, após umas analogias rebuscadas com electrónica, continua:
“Imagine que exista num determinado ponto de um ser vivo qualquer, uma sobrecarga de energia positiva ou negativa. Este ponto, esta “peça”, passa a funcionar mal e, conseqüentemente, tende a comprometer o funcionamento da “máquina” inteira(2)“
“Através de agulhas metálicas, já que os metais, sobretudo o ouro e a prata, são ótimos condutores de eletricidade descarrega se o excesso de energia (positiva ou negativa) deste ponto. Restabelecido o equilíbrio a “peça” volta a funcionar direito, desaparecem os sintomas do problema e a “máquina” passa a funcionar em condições normais.(3)“
Esta análise é completamente ridícula tanto sob o ponto de vista científico como da acupunctura.
Em primeiro lugar ficamos sem saber como é que a acupunctura funcionava quando as agulhas eram feitas de osso. Também seria interessante reparar que, de acordo com o autor, a agulha descarrega o excesso de energia. Não só a MTC não afirma nada do género como inclusivamente a acupuntura é usada para tratar padrões de deficiência (vazio de yin, vazio de yang, vazio de qi, vazio de sangue).
Em segundo lugar chegamos à conclusão que a energia positiva e negativa está relacionada com a energia eléctrica. No entanto a energia eléctrica não é mais do que a soma da energia cinética (energia associada ao movimento) e energia potencial (energia associada à posição). Não existe nada conhecido como energia positiva e negativa. Isto nada mais é que vitalismo a modificar os conceitos científicos.
Termina esta parte com a afirmação:
“Só que a acupuntura é de origem chinesa e, obviamente, tem toda uma terminologia própria. Assim, por exemplo, a energia positiva é chamada Yin, e ao conjunto das duas, a energia vital, os chineses deram o nome de Ki(4)“
Traduzir Yin como energia positiva é pura invenção do autor. Em nenhum momento o Yin é traduzido como energia positiva. O conceito de yin está associado aos líquidos orgânicos e ao frio. Assim um vazio de yin pode manifestar-se com sintomas de secura (pele seca, boca e garganta seca, urina escassa e escura, tosse seca ou com expectoração amarela e escassa) ou com sintomas de secura e calor (agitação, vexação, suores nocturnos, sensação de calor, rubor malar, febre vespertina). No primeiro caso temos a existência de um vazio de Yin sem calor e no segundo temos o típico vazio de Yin com manifestações de calor.
Daqui se compreende que o Yin não é compreendido como energia positiva mas sim como um conceito abstracto que visa ser aplicado a determinados contextos definindo, desta forma, uma realidade clínica objectiva. Quando o autor se refere ao conjunto das 2 quer dizer o Yin (energia positiva) e o yang (energia negativa). Finaliza com o erro do costume em considerar o Qi como energia vital. Isto é derivado das mutilações que os tradutores ocidentais impuseram à terminologia técnica da MTC.
Na realidade em MTC não se pode somente analisar o termo Qi, na maioria das vezes, uma vez que ele vem sempre acompanhado de outro caracter que pode alterar o seu significado. Exemplos como yúan qì, wèi qì, zōng qì ou zhēn qì, zhèng qì mostram a variedade de significados aos quais está associado o conceito de Qì. Em artigos posteriores farei uma descrição pormenorizada do que estes termos significam em MTC.
NOTAS
(1)http://www.paisagismobrasil.com.br/?system=news&action=read&id=785&eid=297(2)http://www.paisagismobrasil.com.br/?system=news&action=read&id=785&eid=297
(3) Idem, idem
(4) Idem, idem


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