Acupunctura Médica: mais uma forma de misturar politica com conhecimento
O que é a Acupunctura Médica? Por Acupunctura entende-se uma das terapêuticas provenientes da Medicina Chinesa e por Médica entende-se que a Acupunctura é feita com base no diagnóstico médico. Actualmente começa-se a falar da diferença entre acupunctura tradicional e acupunctura médica. No entanto estas diferenças são difíceis de compreender na prática clínica. As suas divisões são mais facilmente compreendidas quando levamos em linha de conta o interesse da comunidade médica em apoderar-se dos conhecimentos dos outros e protegerem simultaneamente o seu papel hierárquico dentro das ciências da saúde. Aquilo a que se chama Acupunctura Médica não é mais que uma forma de se misturar ciência com política.
Na acupunctura tradicional não se pode fazer acupunctura com base no diagnóstico médico. No entanto os médicos, com base no seu diagnóstico, podem fazer acupunctura tradicional. O que acontece é mais ou menos isto: a medicina chinesa diz que 2 ou 3 pontos são bons para tratar determinado sintoma (6MC para gastralgias ou vómitos, por exemplo). Alguns estudos científicos, comprovando o que é afirmado, demonstram que estes pontos são bons para aliviar queixas digestivas como gastralgias (dor de estômago), dilatação abdominal, etc…
Então, cada vez que os médicos diagnosticarem uma úlcera gástrica ou outro problema qualquer em que apareçam estes sintomas, podem usar estes pontos. E assim temos a acupunctura médica. Imaginem o que seria a medicina chinesa fazer o mesmo com a medicação ocidental ou outras técnicas terapêuticas da medicina convencional.
Uma análise mais próxima dos tão famosos protocolos (que podem sofrer pequenas alterações de país para país) permite-nos compreender que são imitações baratas e despersonalizadas de protocolos tradicionais. Os protocolos usados no tratamento de muitas doenças não são mais que plágios mal feitos dos protocolos da acupunctura tradicional. Este plágio é banhado de respeitabilidade pelo seu nome próprio: “Acupunctura Médica”.
Na obra Acupunctura Médica: um enfoque cientifico do ponto de vista ocidental, uma obra de referência merecida, são analisados uma série de estudos científicos sobre o efeito da acupunctura no tratamento de uma série de patologias. Estes resultados são apresentados por sistema: cardiovascular, digestivo, etc…
As descobertas são excepcionais: os pontos 17VC, 6MC e 36E são bons para disfagia; 36E é útil no tratamento da dor epigástrica e das cólicas intestinais; 6VC, 25E e 36E são benéficos no tratamento da diarreia infantil; 25E, 25B, 3F e 4IG devem ser utilizados no tratamento da obstipação e, imagine-se, o ponto 57B deve ser usado no tratamento de hemorroidal. Realmente impressionante. O interessante é que muitos destes estudos recorreram a especialistas de MTC para a sua elaboração e os pontos foram seleccionados de acordo com o que a MTC afirma. Agora basta aplicar os pontos em patologias médicas com os mesmos sintomas e voilá…
Outra forma de se validar este tipo de acupunctura consiste em justificar fisiologicamente os efeitos clínicos do ponto. Muitos estudos têm sido realizados, no sentido, de se compreender os mecanismos subjacentes ao funcionamento da acupunctura. Como referido várias vezes, o facto da acupunctura funcionar não significa que as explicações para o seu funcionamento sejam as mais correctas.
No entanto, chamar “acupunctura médica” porque se recorre à ciência e ao método científico, é, na minha opinião, bastante abusivo. Quanto muito, deveria chamar-se “Acupunctura Científica”. É perfeitamente natural que a MTC comece a usar o conhecimento científico de forma a estudar com maior profundidade as suas afirmações e a desenvolver o seu corpo de conhecimentos. A ligação entre ciência e MTC é cada vez mais forte: desde o uso de tecnologia para a electropunctura ou laserpunctura a novos princípios de pontos associados a esse tipo de técnicas, como a selecção de pontos de acordo com os grupos musculares. Esta é uma abordagem que a MTC vem fazendo há muitos anos ampliando o seu campo de conhecimentos e desenvolvendo protocolos mais eficazes e específicos para determinadas situações.
Em Portugal o termo ganhou ainda novos contornos. Se em países estrangeiros a “Acupunctura Médica” é ensinada a profissionais de saúde, em solo Lusitano ela é da exclusiva competência dos médicos. Do plágio para o discurso do medo dos pseudo-profissionais sem protocolos plagiados é um pequeno passo sem uma fronteira de bom senso ou honestidade intelectual.
A questão que se coloca é a seguinte: qual o espaço de manobra da medicina chinesa para entender o seu funcionamento numa base científica sem cair na “acupunctura médica” (sabemos que a “acupunctura médica” tem todo o espaço de manobra que desejar!)?


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