Acupunctura e Música: analogias de um professor – PARTE II

Acupunctura e Música: analogias de um professor – PARTE II



Como tal, chega uma altura em que se é obrigado a passar para uma nova pauta de forma a fazer o aluno evoluir nos seus conhecimentos de acupunctura. No 3º ano a nova pauta possui 2 níveis sendo eles:

Pontos de queixa principal + pontos de padrão clínico.

Esta partitura é mais complicada que a anterior, apesar de ter uma pauta de 2 linhas, unicamente. Na realidade a pauta anterior, ensinada aos alunos do 2º ano, encontra-se no 2º nível da pauta actual: pontos para o padrão clínico. O padrão clínico do exemplo era o vazio de yin do rim.

Para facilitar os meus exemplos continuaremos com o mesmo padrão clínico de vazio de yin. Para conseguirmos preencher a nova pauta com todas as “notas musicais” precisamos saber qual a queixa principal. Neste caso o doente apresentava zumbidos como queixa principal. Logo, aos pontos 23B, 6BP e 3R eu poderia adicionar 19ID e 2VB. Estes pontos encontram-se no ouvido e são sintomáticos para o tratamento de problemas auditivos. Poderia traduzir o meu protocolo por:

1 – zumbidos (2VB, 19ID) – pontos da queixa principal;

2 – vazio de yin (6BP) do rim (23B – ponto de órgão) e 7R (ponto de tonificação) – pontos do padrão clínico.

Se a queixa principal fosse lombalgia eu poderia usar os pontos 25B e 40B. Neste caso os pontos 19ID e 2VB já não fariam sentido. Mudava a queixa principal mas a pauta na qual se inserem as notas musicais da acupunctura continuaria a mesma.

A diferença é que começamos sempre a pensar na queixa principal. Uma das grandes vantagens é que podemos seguir o mesmo modelo, na construção do protocolo de acupunctura, que seguimos durante o diagnóstico. Assim é mais fácil ao aluno manter uma objectividade clínica que lhe permita tratar o que é realmente relevante.

Deve ter reparado que o protocolo começou a ficar mais personalizado. Todos os protocolos de acupunctura são personalizados (um problema para quem quer fazer investigação cientifica em acupunctura). O objectivo final do curso de acupunctura é garantir que o aluno é capaz de formular protocolos personalizados.

No entanto, a nova pauta só permite personalizar a queixa principal e todos os padrões clínicos são constituídos por vários sintomas. O protocolo que usamos para o padrão do vazio de yin partia do princípio que todos os sintomas são idênticos para todos os pacientes. No entanto isto não corresponde à realidade clinica. Tanto o vazio de yin como o rim possuem uma vasta gama de sintomas que variam de doente para doente. Isto significa que 2 doentes com a mesma queixa principal e o mesmo padrão clínico podem apresentar variações sintomáticas relevantes para a formulação do protocolo.

Desta forma somos conduzidos para uma nova pauta musical da acupunctura, também ela ensinada no 3º ano. A nova pauta possui 3 níveis ou linhas:

Pontos de queixa principal + pontos de padrão clínico + pontos de sintomas relevantes. Lembre-se que continuamos com o mesmo protocolo definido anteriormente: 2VB, 19ID, 23B, 6BP, 7R.

A nova pauta exige a adição de determinados pontos mas não obriga à remoção dos pontos existentes. Se num paciente os sintomas de sudação nocturna forem muito severos eu posso adicionar o ponto 6C. Noutro paciente em que a agitação mental é muito severa posso adicionar o ponto extra yintang ou o ponto 24VG. Consigo fazer pequenas adições ao protocolo que definam mais realisticamente o caso clínico que tenho de tratar.

Este tipo de pauta é o mais comum nos livros de estudo de acupunctura. Alguns autores, como Ganglin Yin, gostam de recorrer a uma pauta musical ainda mais complicada que é a última pauta que se pode ensinar em acupunctura. Esta pauta só tem um nível. Falo obviamente do protocolo personalizado. Antes de explicar, de forma muito sucinta, como se podem fazer protocolos a este nível, sugiro uma passagem rápida por tudo aquilo que foi falado.

1ª pauta de musica em acupunctura (vazio de yin do rim)
Pontos de órgão Pontos de acção geral Pontos de tonificação

dispersão

23B, 25VB 6BP, 3R 7R
2ª pauta de música em acupunctura (vazio de yin do rim)
Pontos para o padrão clinico Queixa principal
23B 6BP 7R 2VB, 19ID

zumbidos

25B, 40B

lombalgia

3ª pauta de música em acupunctura (vazio de yin do rim)
Pontos para o padrão clinico Queixa principal Outros sintomas relevantes
23B 6BP 7R 2VB, 19ID

zumbidos

6C

suores nocturnos

24VG

agitação mental

23B 6BP 7R 25B, 40B

lombalgia

63B

dor a urinar

10BP

sangue na urina

Neste quadro adicionei mais 2 sintomas relevantes para dar uma ideia da diversidade que os diferentes protocolos começaram a tomar. Quais as diferenças entre as pautas que temos estado a usar e a pauta final que desejamos, o protocolo personalizado?

Em primeiro lugar os pontos do padrão clínico não precisam ser sempre os mesmos. Em protocolos personalizados eles variam. Face à variedade de pontos e de sintomas é possível alterar estes pontos numa vasta gama de situações.

Em segundo lugar, consoante a gravidade da queixa principal, podemos usar mais pontos para a queixa principal do que para o padrão clínico. Isto não depende só da intensidade das queixas principais mas também da escola do acupunctor. Diferentes escolas podem ter variações no tratamento dos pacientes quando formulam um protocolo de acupunctura.

Finalmente temos a variedade que implicam os pontos usados em sintomas relevantes que não sejam queixa principal. A pacientes que apresentam muitos sintomas que se manifestam de forma violenta o que tem implicações na formulação do protocolo.

Para dar uma pequena ideia do que se pode fazer, estudemos um dos protocolos dados atrás: 23B, 6BP, 7R. Este era o protocolo base usado para o vazio de yin do rim (era o protocolo mais simples). No entanto existem outras opções:

23B, 6BP, 2R caso existam sintomas muito fortes de calor.

23B, 6BP, 6R na presença de obstipação.

23B, 3VC, 6BP quando os sintomas urinários são mais intensos.

23B, 3R, 9R na presença de alguns sintomas de foro psiquiátrico.

Se levar em linha de conta a queixa principal e as múltiplas variações sintomáticas possíveis, então, o protocolo complica bastante, relativamente aos exemplos mais simples aqui usados. Exemplos mais complicados poderiam ser:

7C, 15B, 3R, 52B, 3F, 6BP, 20VG.

Já imaginou para que poderia servir este protocolo? Se já estuda MTC, antes de ler o resto, procure definir a queixa principal, o padrão clínico e os principais sintomas. Se não estuda MTC esteja atento ao resto das respostas dadas a este texto. Assim poderá ler como podemos analisar este protocolo.

BIBLIOGRAFIA

http://pt.wikipedia.org/wiki/Pauta_(m%C3%BAsica)

http://pt.wikipedia.org/wiki/NotaBannerFans.com
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O autor

nuno lemos

Licenciado em Medicina Chinesa pela Universidade de Nanjing divido o meu tempo entre prática clinica, aulas e formações de acupuntura, escrita e mestrado em radiofarmácia.

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