Acupunctura e Música: analogias de um professor – PARTE I
Uma pessoa que olhe para uma partitura pela primeira vez, dificilmente, compreenderá o que lá se apresenta. Mesmo que considere o seu objecto de admiração extremamente belo… quase como uma nova linguagem por descobrir.
Uma partitura é constituída por notas musicais e pela pauta. A pauta ou pentagrama consiste num conjunto de 5 linhas onde são inseridas as notas musicais. Pode-se chamar pentagrama porque é constituída por 5 linhas. Sem o pentagrama torna-se muito difícil compreender um conjunto de notas musicais pois não se lhes conhece a altura, a duração ou o compasso.
Qualquer músico lhe dirá que sem conhecer estes 3 elementos (altura das notas musicais, duração ou compasso) muito dificilmente conseguirá tocar uma partitura decentemente.
Por nota musical compreende-se “o elemento mínimo de um som, formado por um único modo de vibração do ar.” Existem algumas notas que todos nós conhecemos: dó, ré, mi, etc… São as diferentes combinações destas notas musicais no pentagrama que nos permite admirar milhares de artistas por todo o mundo desde Beethoven a Marylin Manson. É a pauta que permite a uma nota ter alturas ou durações diferentes o que aumenta o número de combinações possíveis para produzir boa música.
A acupunctura é muito semelhante à música, apesar de ter uma linguagem diferente. Em vez de Dó dizemos 3R; as notas musicais são trocadas por pontos de acupunctura. Da mesma forma que um músico olhando para uma partitura consegue, através da disposição das notas musicais na pauta, perceber se está frente a uma obra de arte ou a um acidente de mau gosto, também o acupunctor consegue compreender se está em frente a um bom protocolo ou uma má melodia.
No entanto existem algumas diferenças entre a acupunctura e a música. Em acupunctura a pauta é invisível e não é pensada como sendo 5 linhas. É a disposição dos pontos de acupunctura que nos permite saber se essa pauta imaginária está correcta ou não. Apesar da pauta dever estar sempre presente ela nunca é visível aos olhos do leigo.
Além de ser invisível também não é única. Ou seja, em diferentes alturas do ensino em acupunctura, podem usar-se pautas diferentes. Eu costumo usar 3 pautas diferentes, na medida que os meus alunos evoluem nos seus conhecimentos. Evidentemente que outros professores podem não concordar. Eu aprecio esta abordagem porque ajuda o aluno a ganhar coerência e objectividade nos protocolos que faz.
Nos alunos que se encontram no 2º ano a pauta consiste unicamente em jogar com os pontos em 3 níveis:
Pontos de órgão (assentimento e alarme) + pontos de acção geral (tónicos do yin, yang, etc…) + pontos de tonificação ou dispersão do órgão envolvido. No fundo podemos considerar uma pauta de 3 linhas. Obviamente que não se pensa na duração, altura ou compasso.
Vamos supor que um aluno apresenta o seguinte protocolo: 25VB, 23B, 6BP, 3R, 7R.
Este protocolo obedece à pauta imaginária que descrevi anteriormente. Temos pontos do órgão rim (25VB, 23B) + pontos de acção geral tónicos do yin (6BP, 3R) + ponto de tonificação do rim (7R). Logo posso supor a existência de um vazio de yin do rim. Apesar de não ser visível, a pauta imaginária está presente. Trocar o ponto 7R pelo ponto 5IG colocaria em causa a pauta e logo o protocolo estaria errado.
O protocolo não necessita ser tão extenso. Por exemplo, se eu usar os pontos 23B, 6BP e 7R continuo a obedecer à pauta imaginária. Tenho um ponto de órgão do rim (23B) + um ponto de acção geral para tonificar yin (6BP) e o ponto de tonificação do rim (7R).
Uma vez que esta pauta é só dirigida ao padrão clínico ela não nos diz nada sobre a queixa principal do doente ou sobre outros sintomas secundários que possam ter relevância. O protocolo usado (23B, 6BP, 7R) não nos consegue dizer se o paciente sofre de lombalgia, problemas urinários, fraqueza dos membros inferiores, obstipação, zumbidos ou outra queixa qualquer que possa estar associada aos sintomas relacionados com o rim (tal como entendido na MTC).
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
http://pt.wikipedia.org/wiki/Nota


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Miguel says
Esta analogia é particularmente feliz.
Tocar ou compor belas melodias, depende também da experiência de quem o faz.
Também na acupunctura, fazer e criar os protocolos mais apropriados, depende de muita experiência e conhecimentos cada vez mais profundos.
Gostei deste post!