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Ciência e Empirismo

A Medicina Chinesa é uma Medicina Empírica. Não é uma Medicina Baseada em princípios científicos. Não é uma Medicina, ou não o foi até ao momento, sujeita ao método científico desenvolvido no Ocidente. Isto apresenta várias implicações: (a) as explicações que oferece não são objectivas sob o ponto de vista científico, logo não são reais, não tem validade e (b) no meio de algumas afirmações verdadeiras sob o ponto de vista clínico (ex: determinado ponto de acupunctura alivia determinada queixa) existem outras que são de todo falsas; o exemplo acima também serve para este caso.

Podemos, então, partindo destas 2 afirmações garantir que a Medicina Chinesa não tem validade? Podemos garantir que é vudu, puro e duro, que depende das crenças dos pacientes? Podemos partir do princípio que a Medicina Chinesa não tem nada para nos ensinar? Ou, ao provarmos que um determinado tratamento se verifica estamos a provar que a explicação apresentada é verdadeira? Neste capítulo espero poder discutir estas e outras problemáticas que se nos colocam ao analisar a Medicina Chinesa à luz da ciência ocidental.

Noutros textos podemos vislumbrar, muito por alto, como se pensa na Medicina Chinesa. Isto pode ajudar-nos a levantar questões e a procurar respostas para essas questões no decorrer deste texto.

Meridianos, Qi e Ciência

De acordo com a Medicina Chinesa o corpo é percorrido por um conjunto de canais designados de meridianos. Estes meridianos dividem-se em meridianos regulares, colaterais, maravilhosos, etc… Além disso também são compreendidos de acordo com a natureza do seu órgão ou víscera.

Em MTC as vísceras são de natureza Yang enquanto que os órgãos são de natureza Yin. Por isso se compreende que os meridianos da Bexiga, da Vesícula Biliar e do Estômago sejam meridianos de natureza Yang, enquanto que os meridianos do Rim, do Fígado e do Baço/Pâncreas sejam meridianos de natureza Yin. De acordo com a teoria básica um desequilíbrio surge caracterizando-se como doença ou padrão clínico. Regra geral os padrões clínicos são os mais estudados e compreendidos. Daí existirem pontos que eliminam Humidade, Tónicos do Yin, do Yang, etc…

Ao inserirem-se agulhas nesses pontos poderemos contradizer a evolução da maleita e garantir um retorno a homeostasia interna do paciente. Quando há dor a inserção da agulha vai permitir o desbloqueamento do qi e o consequente alívio dessa queixa.

Estudos científicos já comprovaram a eficácia da acupunctura no tratamento da dor. Significa isso que comprovaram a existência de meridianos? Não exactamente. Estudos científicos já comprovaram a eficácia do ponto 6MC para náuseas e/ou vómitos. Significa isto que está provada a existência do Qi? Não exactamente. Encontramo-nos agora face ao calcanhar de Aquiles mas também ao mais espectacular que a Medicina Chinesa tem para oferecer.

Na realidade provar-se um determinado fenómeno clínico não significa aceitar cegamente as explicações que se dão para esse fenómeno. Por outro lado conseguir desenvolver todo um conjunto de ideias, sem o apoio do método científico (muito recente comparado com a MTC), que reúnam uma coerência interna muito grande e que nos permitam compreender os efeitos clínicos de determinado tratamento demonstra um trabalho de observação e raciocínio excelente. Não há ninguém que ao estudar a MTC não fique deslumbrado com as teorias e o seu poder explanatório; é impossível não admirar os grandes mestres chineses pelo trabalho desenvolvido há milhares de anos e continuado durante centenas de anos até aos nossos dias.

Isto também não implica que devemos, nos dias de hoje, fechar os olhos á luz da ciência e viver para sempre enclausurado nos princípios fundamentais da MTC. Ao fazermos isso, estaremos a honrar o espírito de grandes mestres que pretendiam compreender o mundo que os rodeava ou a desonrá-los? (Isto tanto se aplica aos profissionais de MTC como aos profissionais de outros campos de saúde). Nesta corda bamba torna-se difícil definir onde acaba o espírito científico e onde começa o fundamentalismo. Onde será que a porta dos nossas crenças fecha a entrada à razão? Onde a luz dos dogmas se sobrepõe a explicações objectivas comprovadas teórica e experimentalmente?

Gostar de MTC ou praticá-la não implica fechar os olhos a todo um mundo novo de conhecimentos nem a ignorá-los para o bem das nossas crenças. Por outro lado é impossível gostar de MTC ou praticá-la se não tivermos capacidade de perguntar a nós mesmos: será isto mesmo assim? Outras explicações invalidam a minha abordagem ao paciente? Etc…. Eu penso que não. Abordar a MTC á luz da Ciência Ocidental, deixar para trás explicações que já não são satisfatórias e aceitar novas explicações mais objectivas implica tanto alterações na MTC como na MO.

Fecharmo-nos na tradição e esquecermos o espírito criador da nossa espécie é fechar as nossas mentes ao conhecimento e fechar os nossos filhos num mundo de ignorância.

E, como veremos mais à frente, será que questionar alguns dos princípios básicos da Medicina Chinesa invalida a forma como classificam os sintomas, e como classificam plantas e alimentos para lutar contra esses sintomas? Será que mudar a nossa percepção do mundo ou a linguagem usada para o descrever invalida a nossa forma de intervir contra a doença?

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CATEGORIA : ESOTERISMO
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